Valdemar, Rueda e o cinismo de quem nunca bateu um ponto na vida contra o fim da escala 6x1.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| O Brasil não pode ser o quintal da escravidão moderna. |
Como se não
bastasse o cinismo político, ainda temos que aguentar o Pastor Marcos Pereira
dizendo que 'ócio demais faz mal'. É de uma crueldade sem limites sugerir que o
trabalhador pobre, se tiver tempo livre, vai cair nas drogas ou no crime porque
não tem dinheiro para lazer. Isso é puro preconceito de classe travestido de
preocupação moral. O que o pastor chama de ócio perigoso, nós chamamos de
direito humano: é o direito de esticar as pernas, de assistir uma novela com a
família, de brincar com o neto ou simplesmente de não fazer nada sem sentir o
peso da exaustão nas costas. Lazer não é só viagem de luxo; o descanso é a base
da dignidade.
Essa
conversa fiada de que 'mais trabalho significa mais prosperidade' é a maior
mentira contada pela elite. Prosperidade para quem? Para o patrão, que troca de
carro importado todo ano, ou para o empregado, que adoece de burnout e morre
cedo porque o corpo não aguenta a pressão? O México já entendeu o recado e
aprovou a redução da jornada. Testes no mundo inteiro mostram que trabalhador
descansado rende mais, erra menos e fica menos doente. Manter a escala 6x1 é
uma escolha política pelo atraso, é querer manter o Brasil com mentalidade de
colônia enquanto o resto do mundo caminha para o futuro.
O relator
Hugo Mota está certo em querer votar isso até maio, o mês do trabalhador. Ele
não faz isso por bondade, faz porque sabe que essa pauta 'dá voto' e que o povo
está de olho. O medo do PL e do União Brasil é exatamente esse: o plenário.
Eles sabem que, se a votação for aberta, nenhum deputado terá coragem de olhar
na cara do eleitor e dizer que é contra o descanso semanal digno. Por isso, a
tática deles é a obstrução, o tapetão e a conversa de pé de ouvido com o grande
capital. Eles querem legislar para uma elite minúscula e ignorar a maioria
esmagadora que carrega o Brasil nas costas.
Não podemos
aceitar que o cansaço do povo seja moeda de troca no Congresso Nacional. A
proposta de solução é clara: pressão total e absoluta em cima dos presidentes
de partido e dos membros da CCJ. O recado tem que ser direto: quem votar contra
o fim do 6x1, ou quem tentar esconder o projeto na gaveta, não terá o nosso
voto nunca mais. Precisamos exigir que a votação ocorra em maio, sem
adiamentos. A pergunta que fica para Valdemar e seus aliados é simples: se o
trabalho dignifica o homem, por que o descanso de quem trabalha tanto incomoda
tanto vocês? Escrever para incomodar o poder — e proteger quem sempre paga a
conta.




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