Entre aditivos suspeitos e a memória de 14 vítimas, a reconstrução da ligação entre Maranhão e Tocantins revela que a corrupção é o material de construção mais resistente do país.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| A corrupção é o material de construção mais caro do Brasil. |
A ironia é
ácida: a ponte leva o nome do presidente que prometeu '50 anos em 5', mas a
prática política local parece preferir 50 anos de atraso ético em cada contrato
assinado. A CGU é clara ao apontar que a falta de concorrência e as falhas
gritantes na estimativa de custos não são meros erros de cálculo, mas um
método. No Brasil, a 'emergência' é a mãe de todas as janelas de oportunidade para
quem vê o orçamento público como um banquete privado.
O que torna
este caso particularmente repulsivo é o cenário de fundo. O local da obra foi
palco de uma tragédia que ceifou 14 vidas. Ignorar a economia de R$ 20 milhões
em uma estrutura marcada pelo luto é, no mínimo, uma profanação. Enquanto
famílias ainda sentem o peso da perda, a burocracia estatal e as empreiteiras
parecem mais preocupadas em inflar planilhas de demolição e aditivar contratos
apenas dois dias após a entrega da obra. É o lucro sobre o cadáver da ética.
Impossível
não traçar um paralelo com o folclore sombrio da política maranhense,
personificado no passado por figuras como Lidiane Leite. Os áudios de Bom
Jardim, onde 'percentuais' eram discutidos com a naturalidade de quem encomenda
um cafezinho, ecoam hoje nos contratos de infraestrutura que não resistem a uma
auditoria séria. A cultura do desvio não é uma exceção; é o sistema operacional
padrão de uma elite política que instrumentaliza a necessidade da população
para garantir a própria opulência.
O DNIT, como
de costume, diz que o caso está 'em análise técnica'. No jargão oficial, isso
geralmente significa esperar que o clamor público se dissipe sob a próxima
notícia de escândalo. Contudo, é preciso dar nome aos bois: quando R$ 20 milhões
desaparecem em sobrepreços sob o manto da urgência, quem paga a conta é o
cidadão que atravessa a ponte sem saber se o que a sustenta é o concreto ou a
impunidade.




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