sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A HIPOCRISIA DO DISCURSO DE QUEM DIZ DEFENDER A DEMOCRACIA

Entre o delírio golpista e a erosão democrática, o Brasil tenta desinfetar os corredores de Brasília do vírus da autocracia.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Responsabilização é a única vacina contra o golpismo.
Observar a política brasileira nos últimos anos tem sido um exercício de paciência e, por que não dizer, de estômago. O fenômeno que convencionamos chamar de bolsonarismo não foi apenas um hiato democrático, mas uma tentativa deliberada de cupinização das instituições por dentro. Enquanto se bradava liberdade em cercadinhos, as estruturas de controle eram asfixiadas sob o manto de um patriotismo de conveniência, onde a bandeira servia mais como mordaça do que como símbolo de união.

A instrumentalização da fé, esse traço tão marcante e perverso da nossa política recente, transformou púlpitos em palanques de ódio. A ironia reside no fato de que aqueles que mais evocam o nome de Deus são os mesmos que flertam com o autoritarismo e desprezam a dignidade humana básica. O 'Deus, Pátria e Família' foi esvaziado de sentido real para se tornar um slogan publicitário de uma seita que não aceita o contraditório e vive em uma realidade paralela alimentada por algoritmos e desinformação profissional.

Não podemos ignorar o papel nefasto das fake news nesse processo. O gabinete do ódio não foi uma invenção da oposição, mas um método de governo. A construção de uma pós-verdade, onde fatos são meras opiniões e a ciência é tratada como inimiga ideológica, deixou cicatrizes profundas no tecido social brasileiro. Em São Luís, como em tantas outras capitais, vimos famílias se dividirem por conta de narrativas fantasiosas que prometiam a salvação da nação contra moinhos de vento comunistas.

O dia 8 de janeiro não foi um raio em céu azul. Foi o desdobramento lógico de anos de ataques sistemáticos ao Judiciário e ao sistema eleitoral. A tentativa de golpe, com sua estética de acampamento e desvario coletivo, revelou quão vulneráveis nossas instituições podem ser quando o topo do poder executivo resolve testar os limites da legalidade. As Forças Armadas, que deveriam ser instituições de Estado, foram arrastadas para um lodaçal de política partidária que levará décadas para ser limpo.

Agora, o desafio é a reconstrução sem anistia para o crime contra a democracia. Punir os executores e, principalmente, os mentores intelectuais não é um ato de vingança, mas de higiene institucional. A democracia brasileira sobreviveu, mas respira com o auxílio de aparelhos enquanto o veneno do golpismo ainda circula por alguns canais do Legislativo e das redes sociais. Vigilância é a palavra de ordem, pois a serpente ainda guarda ovos no ninho do poder.

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