| Justiça social não é caridade, é reparação histórica. |
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
É curioso
observar como o coração financeiro do país, encastelado em vidros fumês e
ar-condicionado central, consegue se manter tão daltônico diante do vermelho
vivo da fome. Enquanto analistas de sapatênis celebram a 'estabilidade
macroeconômica' e o 'otimismo dos mercados', o brasileiro comum faz malabarismo
para esticar o salário mínimo até o dia vinte. A economia, para essa elite,
parece ser um jogo de videogame onde os pontos são acumulados em offshores,
ignorando solenemente que o combustível desse motor é o suor desvalorizado de
quem mal consegue pagar o próprio transporte.
A
desigualdade no Brasil não é um acidente de percurso, mas um projeto
meticulosamente mantido. O discurso da meritocracia, tão caro à direita
bolsonarista e aos herdeiros de fortunas coloniais, serve apenas como uma
anestesia moral. Eles pregam o Estado mínimo para o social, mas exigem o Estado
máximo quando o assunto é socorro bancário ou isenções fiscais para setores que
já nadam em lucro. É a hipocrisia de quem defende a austeridade no prato do
vizinho enquanto se farta com subsídios governamentais disfarçados de
incentivo.
Não se enganem
com a retórica de que 'a maré alta levanta todos os barcos'. Em um país onde
uns navegam em iates e outros se agarram a tábuas de salvação, a maré alta
apenas afoga quem já está com a água no nariz. Precisamos falar seriamente
sobre a taxação de lucros e dividendos, sobre a reforma de um sistema
tributário que penaliza o consumo — e, portanto, o pobre — enquanto protege o
patrimônio dos super-ricos. Sem uma redistribuição real de poder e recursos, o
crescimento econômico é apenas um eufemismo para o engorda de poucos
privilegiados.




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