quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A URGÊNCIA DE TAXAR OS SUPER-RICOS

Justiça social não é caridade, é reparação histórica.

Enquanto o PIB celebra números abstratos, a mesa do trabalhador enfrenta a realidade crua de uma desigualdade que não cede ao otimismo de planilha.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

É curioso observar como o coração financeiro do país, encastelado em vidros fumês e ar-condicionado central, consegue se manter tão daltônico diante do vermelho vivo da fome. Enquanto analistas de sapatênis celebram a 'estabilidade macroeconômica' e o 'otimismo dos mercados', o brasileiro comum faz malabarismo para esticar o salário mínimo até o dia vinte. A economia, para essa elite, parece ser um jogo de videogame onde os pontos são acumulados em offshores, ignorando solenemente que o combustível desse motor é o suor desvalorizado de quem mal consegue pagar o próprio transporte.

A desigualdade no Brasil não é um acidente de percurso, mas um projeto meticulosamente mantido. O discurso da meritocracia, tão caro à direita bolsonarista e aos herdeiros de fortunas coloniais, serve apenas como uma anestesia moral. Eles pregam o Estado mínimo para o social, mas exigem o Estado máximo quando o assunto é socorro bancário ou isenções fiscais para setores que já nadam em lucro. É a hipocrisia de quem defende a austeridade no prato do vizinho enquanto se farta com subsídios governamentais disfarçados de incentivo.

Não se enganem com a retórica de que 'a maré alta levanta todos os barcos'. Em um país onde uns navegam em iates e outros se agarram a tábuas de salvação, a maré alta apenas afoga quem já está com a água no nariz. Precisamos falar seriamente sobre a taxação de lucros e dividendos, sobre a reforma de um sistema tributário que penaliza o consumo — e, portanto, o pobre — enquanto protege o patrimônio dos super-ricos. Sem uma redistribuição real de poder e recursos, o crescimento econômico é apenas um eufemismo para o engorda de poucos privilegiados.

A verdadeira democracia não se sustenta em um solo tão infértil de oportunidades. A justiça social exige coragem para enfrentar os donos do capital que, historicamente, sabotam qualquer tentativa de emancipação das classes populares. Enquanto o lucro for o único deus cultuado nos altares de Brasília e São Paulo, o Brasil continuará sendo esse gigante que ostenta riquezas, mas não consegue calçar os próprios filhos. A mudança não virá pela benevolência do mercado, mas pela pressão incansável de quem sabe que dignidade não se negocia em bolsa de valores.

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