| A regulação das redes virou bicho-papão da extrema-direita. |
Entre o lucro
desenfreado do Vale do Silício e a erosão da democracia, o Brasil tateia em
busca de limites para as plataformas que transformaram a mentira em mercadoria.
Por:
Altair Inácio
Jornalista e Colunista
É fascinante
notar como o conceito de 'liberdade' se tornou o refúgio predileto dos canalhas
digitais. Enquanto as Big Techs operam em um vácuo regulatório que faria inveja
aos barões do petróleo do século XIX, a verdade tornou-se um acessório
opcional. No Brasil, essa negligência planejada serviu de berço para o
ecossistema de desinformação que quase nos custou o Estado de Direito. Não é
apenas algoritmo; é um modelo de negócios que monetiza a indignação e o ódio,
transformando cliques em dividendos, custe o que custar à paz social.
A hipocrisia
da extrema-direita brasileira, capitaneada pelo bolsonarismo, é um espetáculo à
parte. Gritam 'censura' sempre que se fala em responsabilidade, mas são os
primeiros a usar a máquina de moer reputações para silenciar críticos. Para
esses grupos, a regulação é um veneno porque retira o anonimato covarde e a
impunidade das milícias digitais. Eles sabem que, sem a proteção opaca dos
termos de serviço lenientes, suas narrativas fantasiosas desmoronariam sob o
peso mínimo da realidade jurídica e factual.
Regulamentar
não é calar o cidadão comum, mas sim exigir que empresas trilionárias prestem
contas pelo que impulsionam em seus feeds. Se uma montadora de carros é
responsável por um freio defeituoso que causa um acidente, por que Mark
Zuckerberg ou Elon Musk não seriam responsáveis por algoritmos que promovem
tentativas de golpe ou linchamentos virtuais? O debate sobre o PL das Fake News
não é sobre quem pode falar, mas sobre quem lucra com a destruição das
instituições e o que essas plataformas escondem sob o véu de seus segredos
comerciais.
No fim das
contas, a democracia brasileira está em uma encruzilhada tecnológica. Ou o
Estado assume o papel de mediador e protetor do espaço público, ou
continuaremos reféns de CEOs que vivem na Califórnia e enxergam nossas tensões
sociais apenas como métricas de engajamento para vender anúncios. A soberania
digital não é um capricho nacionalista, é uma necessidade de sobrevivência.
Afinal, uma nação que não consegue distinguir entre um fato e uma montagem de
WhatsApp está fadada a ser governada por quem melhor domina a arte da trapaça
algorítmica.




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