Entre latas de metal e imagens de IA, a
extrema-direita brasileira prova que a interpretação de texto — e de arte —
continua sendo um artigo de luxo.
Jornalista e Colunista
Por: Altair Inácio
| Entender a arte não é pra amadores. |
O Carnaval de 2026 nos brindou com uma das metáforas mais precisas da nossa década: a escola de samba Acadêmicos de Acadêmicos de Niterói desfilando, em uma de suas alas, representação de ‘famílias tradicionais’ em latas de conserva. O simbolismo, para qualquer um que não tenha a sensibilidade de um paralelepípedo, era cristalino. A lata representa o aprisionamento, o artificialismo dos conservantes e a tentativa desesperada de manter algo 'intocado' pelo tempo, mesmo que o conteúdo já tenha perdido o frescor e a vida. É a estética da aparência sobre a essência, a moralidade de prateleira que se vende como nutritiva, mas é repleta de sódio e hipocrisia.
Contudo, o
que se viu nas redes sociais após o desfile foi um espetáculo de analfabetismo
funcional digno de nota. Grupos evangélicos e setores da chamada 'família
tradicional' reagiram não com reflexão, mas com o automatismo de quem se sente
atacado por um espelho. Em uma ironia quase poética, passaram a inundar as
redes com imagens geradas por Inteligência Artificial retratando suas famílias —
pasmem — de forma artificial. Ou seja: para rebater a crítica de que são uma
'construção artificial', usaram uma ferramenta que constrói realidades
inexistentes.
A
dificuldade em distinguir o ataque à instituição familiar da crítica ao
comportamento hipócrita é o grande trunfo da manipulação política atual. A
escola de samba não desfilou contra o amor, contra os filhos ou contra o afeto.
Ela desfilou contra a 'família de fachada', aquela que se mantém enlatada sob o
verniz da religiosidade enquanto, nos bastidores, convive com a violência
doméstica, o preconceito contra os próprios membros e a moral seletiva que perdoa
o político corrupto, mas condena o folião. A lata é o invólucro do segredo.
Essa reação
defensiva via IA revela muito sobre o estado mental do bolsonarismo residual.
Eles não conseguem mais lidar com o real. Precisam do algoritmo para reafirmar
uma perfeição que as ruas e as estatísticas desmentem todos os dias. Ao
postarem suas famílias digitais, eles apenas confirmaram o enredo: são, de
fato, figuras processadas, pasteurizadas e prontas para o consumo imediato, sem
qualquer conexão com a complexidade da vida humana que pulsa fora do metal.
No fim das contas, a arte cumpriu seu papel: incomodou quem precisava ser incomodado. Enquanto a Acadêmicos de Niterói propôs um debate sobre a liberdade e a autenticidade, o público ofendido preferiu se trancar ainda mais fundo no armário de aço. É triste perceber que, para muitos, a dignidade só existe se estiver sob vácuo, protegida de qualquer contágio com a realidade diversa. A 'família tradicional' que se sentiu ofendida pela lata é a mesma que esquece que tudo que é enlatado, um dia, vence o prazo de validade.




0 comentários:
Postar um comentário