quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

QUANDO A FÉ VIRA MOEDA DE TROCA

A perigosa amálgama entre o púlpito e a tribuna, onde a salvação se transforma em plataforma eleitoral e a moralidade é apenas um acessório de ocasião.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

O dízimo virou fundo eleitoral.
Não é de hoje que o sagrado e o profano dançam um minueto coreografado nos corredores do poder, mas a atual simbiose entre lideranças religiosas e a política institucional atingiu um nível de refinamento — ou de degradação — que faria os teóricos da laicidade corarem de vergonha. A fé, elemento da esfera mais íntima e digna do ser humano, foi sequestrada por um projeto de poder que não busca o reino dos céus, mas sim o controle do orçamento público e a imposição de uma agenda que marginaliza o diferente.

O que assistimos, especialmente sob a égide do bolsonarismo e seus desdobramentos, é a transformação do púlpito em um palanque de 24 horas. Pastores que outrora se dedicavam ao conforto espiritual de suas ovelhas, agora operam como cabos eleitorais de luxo, vendendo a ideia de que o voto é um pedágio para o paraíso. A ironia é fina e ácida: enquanto pregam uma moralidade rígida para as famílias alheias, fecham os olhos para as mansões, as rachadinhas e o desmonte de políticas sociais que atingem justamente os mais pobres de suas congregações.

A instrumentalização da religião na política brasileira criou uma espécie de 'moralidade de conveniência'. Define-se o 'bem' e o 'mal' não por preceitos éticos universais, mas pela fidelidade ao líder de plantão. É o evangelho segundo as fake news, onde a mentira é perdoada se servir para destruir o adversário político, rotulado convenientemente de inimigo de Deus. Essa manobra desonesta não apenas corrói a democracia, mas esvazia o próprio sentido da espiritualidade, reduzindo-a a uma ferramenta de controle social e exclusão.

Aqui em São Luís, o cenário não é diferente. Vemos figuras locais que circulam entre as igrejas e a Câmara Municipal com a mesma desenvoltura com que trocam de partido. O discurso é sempre em defesa da 'família tradicional', termo elástico que parece não incluir as famílias que passam fome ou os jovens negros das periferias que perdem a vida para a violência. A religião, neste contexto, serve como uma blindagem retórica: criticar o político-pastor passa a ser vendido como um ataque à própria fé, uma estratégia pueril, mas perversamente eficaz para fugir da fiscalização pública.

O Estado laico não é ateu; ele é a garantia de que todas as fés — e a ausência delas — possam coexistir sem que uma se sobreponha às demais pelo uso da força estatal. Quando permitimos que a bíblia seja usada para rasgar a Constituição, o que resta não é uma nação temente a Deus, mas um regime de privilégios disfarçado de santidade. É preciso separar o que é de César do que é do espírito, antes que o altar se torne definitivamente o balcão de negócios de uma teocracia oportunista.

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