| O dízimo virou fundo eleitoral. |
O que
assistimos, especialmente sob a égide do bolsonarismo e seus desdobramentos, é
a transformação do púlpito em um palanque de 24 horas. Pastores que outrora se
dedicavam ao conforto espiritual de suas ovelhas, agora operam como cabos
eleitorais de luxo, vendendo a ideia de que o voto é um pedágio para o paraíso.
A ironia é fina e ácida: enquanto pregam uma moralidade rígida para as famílias
alheias, fecham os olhos para as mansões, as rachadinhas e o desmonte de
políticas sociais que atingem justamente os mais pobres de suas congregações.
A
instrumentalização da religião na política brasileira criou uma espécie de
'moralidade de conveniência'. Define-se o 'bem' e o 'mal' não por preceitos
éticos universais, mas pela fidelidade ao líder de plantão. É o evangelho
segundo as fake news, onde a mentira é perdoada se servir para destruir o
adversário político, rotulado convenientemente de inimigo de Deus. Essa manobra
desonesta não apenas corrói a democracia, mas esvazia o próprio sentido da
espiritualidade, reduzindo-a a uma ferramenta de controle social e exclusão.
Aqui em São
Luís, o cenário não é diferente. Vemos figuras locais que circulam entre as
igrejas e a Câmara Municipal com a mesma desenvoltura com que trocam de
partido. O discurso é sempre em defesa da 'família tradicional', termo elástico
que parece não incluir as famílias que passam fome ou os jovens negros das
periferias que perdem a vida para a violência. A religião, neste contexto,
serve como uma blindagem retórica: criticar o político-pastor passa a ser
vendido como um ataque à própria fé, uma estratégia pueril, mas perversamente
eficaz para fugir da fiscalização pública.
O Estado laico não é ateu; ele é a garantia de que todas as fés — e a ausência delas — possam coexistir sem que uma se sobreponha às demais pelo uso da força estatal. Quando permitimos que a bíblia seja usada para rasgar a Constituição, o que resta não é uma nação temente a Deus, mas um regime de privilégios disfarçado de santidade. É preciso separar o que é de César do que é do espírito, antes que o altar se torne definitivamente o balcão de negócios de uma teocracia oportunista.




0 comentários:
Postar um comentário