terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A MENTIRA COMO PROJETO DE PODER

A desinformação é o cupim da nossa democracia.

Como a desinformação deixou de ser boato de quermesse para se tornar a espinha dorsal de projetos de poder autoritários.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Combater essa epidemia exige mais do que checagem de fatos; exige um resgate da coragem intelectual. É preciso expor não apenas a mentira, mas o método e o financiador. Enquanto a mentira for um negócio lucrativo e uma estratégia eleitoral impune, continuaremos reféns de uma realidade alternativa desenhada para nos manter dóceis e divididos. A verdade pode ser amarga e complexa, mas é o único chão firme sobre o qual se pode construir uma nação que não se desmancha ao primeiro clique.

Vivemos a era da mentira industrializada, onde o Joseph Goebbels do século XXI não usa farda, mas veste o terno da conveniência e opera a partir de fazendas de cliques financiadas por setores que detestam a luz do sol. A desinformação contemporânea não busca apenas convencer; seu objetivo primordial é saturar o ambiente informacional até que o cidadão comum, exausto e confuso, renuncie à distinção entre fato e ficção. É a democratização do delírio, onde a convicção pessoal vale mais que a evidência científica ou o registro histórico.

O bolsonarismo, mestre supremo nessa arte das sombras, transformou o ressentimento em algoritmo. Não se trata apenas de 'fake news' no sentido estrito, mas de uma narrativa paralela que sequestra símbolos nacionais e sentimentos religiosos para criar um inimigo imaginário. Quando a mentira é embalada com o selo do 'divino' ou da 'família', ela deixa de ser uma falha de caráter para se tornar uma missão de fé. A hipocrisia moral atinge seu ápice quando os maiores propagadores de calúnias são os mesmos que desfilam com a Bíblia debaixo do braço, ignorando o mandamento que proíbe o falso testemunho.

Em São Luís, como em tantas capitais brasileiras, o fenômeno se repete com sotaque local. Alianças políticas são costuradas no submundo dos grupos de mensagens, onde a reputação alheia é moída por perfis apócrifos que servem a senhores bem conhecidos do Palácio. A manipulação da opinião pública através do medo — o medo do comunismo, o medo da mudança, o medo do outro — é a ferramenta mais barata e eficaz para manter o status quo de oligarquias que apenas mudam de sobrenome, mas mantêm o mesmo apetite pelo erário.

A ética pública tornou-se um adereço incômodo para essa nova classe política que floresce no lodo da desinformação. Ao questionar as instituições e atacar o jornalismo profissional, esses agentes pavimentam o caminho para o autoritarismo. Afinal, se não existe verdade compartilhada, não pode haver diálogo; e sem diálogo, resta apenas a imposição da força ou do grito. A desinformação é o cupim da democracia, corroendo as vigas do pacto social enquanto a plateia se distrai com a polêmica da vez.

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