| Anistia é o tapete para esconder a vergonha nacional. |
O projeto de
anistia aos golpistas de janeiro não é um gesto de pacificação, mas um
salvo-conduto para o próximo atentado contra a República.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
É fascinante
observar a agilidade da nossa burocracia legislativa quando o objetivo é
estender um tapete vermelho para a impunidade. Mal as cicatrizes nos vidros do
Palácio do Planalto foram polidas, e já havia um movimento frenético nos
corredores de Brasília para transformar o vandalismo golpista em um
mal-entendido entre vizinhos. O projeto de anistia aos envolvidos no 8 de
janeiro não é, como pregam seus defensores, um gesto de 'pacificação nacional',
mas sim um salvo-conduto perigoso para a próxima tentativa de ruptura.
Historicamente,
o Brasil tem o péssimo hábito de varrer seus traumas para debaixo do tapete. Fizemos
isso na transição da ditadura militar, acreditando que o silêncio traria
estabilidade. O resultado? Décadas depois, vimos florescer o mesmo extremismo
que clama por intervenção, alimentado pela certeza de que o crime político, por
aqui, não gera castigo. A anistia que se desenha agora é a repetição desse erro
trágico, uma tentativa de apagar a memória institucional em nome de uma
conveniência política imediatista e rasteira.
O cinismo
atinge níveis estratosféricos quando parlamentares que flertaram com a
insurreição agora posam de defensores dos 'vovôs e vovós' detidos. Ignoram,
deliberadamente, que a punição não visa apenas a retribuição pelo dano
material, mas a reafirmação de que o Estado Democrático de Direito não é
negociável. Anistiar quem tentou subverter o resultado das urnas é dar um
tapinha nas costas do autoritarismo e dizer: 'tente novamente, na próxima
talvez você tenha mais sorte'.
Justiça sem
accountability é apenas um teatro de sombras. Se o Congresso levar adiante essa
blindagem coletiva, estará assinando a certidão de óbito da autoridade moral
das instituições brasileiras. A democracia exige coragem para punir quem a
ataca, sob pena de se tornar cúmplice da sua própria destruição. Que não se
enganem: a pacificação sem justiça é apenas o intervalo para o próximo caos.




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