quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SÃO LUÍS E O BAILE DAS MÁSCARAS: ENTRE O NOVO E O ARCAICO

São Luís assiste a um balé de conveniências onde a ética é apenas um acessório de campanha e a fé, uma moeda de troca.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Alianças por conveniência e fé por estratégia.
Circular pelas ruas de São Luís em tempos de ebulição política é como assistir a uma peça de época encenada com figurinos modernos. A 'Ilha do Amor', por vezes tão maltratada por gestões que confundem o público com o privado, vive hoje o ápice de um jogo de espelhos. De um lado, temos o atual ocupante do Palácio de La Ravardière, Eduardo Braide, que tenta equilibrar-se em uma corda bamba de neutralidade técnica enquanto flerta com o conservadorismo de conveniência. É a velha tática de se vender como 'gestor' para esconder o político que, nos bastidores, precisa ceder aos mesmos vícios de sempre para manter a governabilidade.

Enquanto isso, a Câmara Municipal de São Luís se transforma em um balcão de negócios que faria inveja aos antigos coronéis do sertão. A lealdade dos nossos parlamentares flutua com a mesma velocidade das marés da Baía de São Marcos. O que vemos não é um debate sobre o transporte público caótico ou a saúde precária nas periferias, mas sim uma disputa feroz por nacos de poder e espaços nas secretarias. A moralidade, tão evocada nos discursos de tribuna, parece ter um prazo de validade curto, expirando assim que o primeiro acordo de bastidor é selado com o Palácio dos Leões ou com a Prefeitura.

O fator religioso, claro, não poderia ficar de fora. A instrumentalização da fé tornou-se o combustível preferido dos aspirantes a salvadores da pátria ludovicense. Candidatos que nunca pisaram em uma missa ou culto de periferia agora surgem como paladinos dos 'valores da família', usando a Bíblia como escudo para esconder a ausência de projetos reais para a desigualdade abissal que corta a nossa capital. É a hipocrisia elevada à categoria de arte política, onde o dízimo da atenção do eleitor é cobrado com promessas vazias de redenção administrativa.

Não podemos ignorar a sombra projetada pelo Palácio dos Leões. O governo de Carlos Brandão observa o tabuleiro municipal com a paciência de quem sabe que, no Maranhão, o poder estadual é o sol em torno do qual todos os planetas menores orbitam. As alianças que se formam e se desfazem em São Luís são, em última análise, um ensaio para as próximas grandes batalhas estaduais. O ludovicense, no meio desse fogo cruzado, é tratado como um detalhe estatístico, alguém que deve ser convencido pelo medo ou pela gratidão, mas raramente pela razão ou pelo debate de ideias.

A desinformação, ou as famigeradas fake news, completam esse cenário dantesco. Grupos de WhatsApp tornaram-se tribunais sumários onde reputações são assassinadas por encomenda. O bolsonarismo, mesmo em retração nacional, deixou aqui a sua herança maldita: a negação do diálogo e a demonização do adversário. Em São Luís, política não é mais sobre o bem comum, mas sobre quem grita mais alto ou quem consegue espalhar a mentira mais convincente antes do dia da eleição.

Por fim, resta ao cidadão consciente o papel de crítico dessa ópera bufa. Precisamos desmascarar o 'novo' que cheira a mofo e exigir que a ética não seja apenas um slogan de campanha, mas um compromisso inegociável. A história de São Luís merece mais do que o atual revezamento de oligarquias e personalismos. O despertar da Ilha passa, obrigatoriamente, pelo fim da passividade diante desse teatro de sombras que insiste em nos manter no passado.

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