quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

BRASILEIRO É IMPRODUTIVO, DIZ JORNALISTA

O trabalhador não é uma máquina de lucro infinito."

Enquanto o 'agro' é blindado, o trabalhador comum é humilhado por uma lógica que cheira a senzala e privilégio.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política

Em recente comentário no Jornal da Band o jornalista Eduardo Oinegue, faz as seguintes falas: “Pega dois trabalhadores, um brasileiro e um americano. O americano produz quatro vezes mais. [...] O que um americano fabrica numa semana, a gente aqui no Brasil precisa de um mês para produzir."

É de uma desonestidade intelectual gritante ver jornalista de gravata, em estúdio climatizado, apontar o dedo para o trabalhador brasileiro e chamá-lo de 'improdutivo'. A comparação rasa com o trabalhador americano não passa de uma tática de manipulação para manter o nosso povo de cabeça baixa. Eles esquecem — ou fingem esquecer — que a produtividade de um país não depende apenas do suor da testa, mas de investimento em tecnologia, infraestrutura e, principalmente, dignidade humana. Comparar um país que sofre com transporte público precário e fome com uma potência armada de subsídios é, no mínimo, crueldade.

Mais à frente o mesmo âncora afirma: "O Brasil é um país improdutivo." Há uma exceção aqui, outra ali, como o agro”. [...] Esse discurso de que 'o brasileiro produz pouco' é a herança maldita do pensamento escravocrata que atravessa gerações na elite brasileira. Para essa gente, o trabalhador não é um cidadão com direitos, mas uma ferramenta que deve ser explorada até o bagaço. Quando dizem que o Brasil é improdutivo, o que eles realmente querem dizer é que o lucro deles seria maior se pudéssemos trabalhar 24 horas por dia sem reclamar. É a lógica do chicote moderno, agora disfarçada de 'índices de competitividade'.

A exceção feita ao 'agro' no comentário desse jornalista não é por acaso. O agronegócio no Brasil é tratado como uma divindade intocável porque é ali que o grande capital se concentra. O agro é 'produtivo' à custa de isenções fiscais bilionárias, perdão de dívidas e o uso desenfreado de veneno, enquanto o trabalhador da cidade, que pega três ônibus para chegar ao serviço, é tratado como o vilão da economia. Já sabemos muito bem a quem esses microfones servem e qual bandeira eles defendem: a do lucro de poucos sobre a miséria de muitos.

Por fim, o jornalista dispara: "E reduzir a jornada de trabalho sem redução salarial vai fazer o Brasil ficar ainda mais improdutivo, menos competitivo." Reduzir a jornada de trabalho sem reduzir o salário não é um 'atraso', é uma necessidade humanitária e de saúde pública. Países desenvolvidos já entenderam que gente descansada e feliz produz melhor e consome mais. Mas aqui, a elite de direita e extrema-direita prefere a política da exaustão. Eles temem que o trabalhador tenha tempo para estudar, para ficar com a família ou, pior ainda, tempo para pensar e se revoltar contra as injustiças que eles mesmos promovem.

Chega de aceitar que nos chamem de preguiçosos enquanto sustentamos esse país nas costas. A solução para a produtividade não está em aumentar as horas de escravidão, mas em taxar as grandes fortunas, investir seriamente em educação tecnológica e garantir que o lucro do agro também chegue na mesa de quem passa fome no Maranhão e no resto do Brasil. Questiono aqui: até quando vamos permitir que a narrativa de quem nunca pegou um ônibus lotado defina o valor do nosso trabalho? 

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