Entre o culto à personalidade e a fragilização das instituições, o Brasil tenta redescobrir o significado de República.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
Observar o
cenário político brasileiro contemporâneo é como analisar os escombros de uma
construção que, embora parecesse sólida, foi corroída por dentro por cupins
ideológicos. O bolsonarismo não foi apenas um fenômeno eleitoral passageiro;
ele se manifestou como uma patologia institucional que buscou, de forma
metódica, desgastar as engrenagens da democracia sob o pretexto de uma 'liberdade'
que só vale para os seus convertidos. A ironia, essa velha senhora, sorri ao
ver que os mesmos que bradavam contra o sistema hoje se agarram às suas brechas
para evitar o rigor da lei.Patriotismo de verdade defende o povo, não um
mito.
A
instrumentalização da fé, um dos pilares desse movimento, transformou púlpitos
em palanques, sequestrando a espiritualidade alheia em nome de um projeto de
poder terreno e, muitas vezes, sombrio. É fascinante — no sentido mais
aterrorizante da palavra — perceber como a moral seletiva tornou-se a moeda de
troca oficial. Enquanto se pregava a defesa da família, as políticas públicas
de proteção social eram desidratadas, e o abismo da desigualdade, esse nosso
velho conhecido, ganhava novas e profundas camadas de descaso.
No Maranhão,
e especificamente em nossa São Luís, vimos os reflexos dessa onda chegar com o
vigor de uma ressaca destrutiva. Alianças improváveis foram costuradas no calor
do oportunismo, unindo o discurso de 'renovação' com as práticas mais arcaicas
do coronelismo digital. O uso de milícias digitais para assassinar reputações
tornou-se o método padrão, substituindo o debate de ideias pela metralhadora
giratória de fake news que, infelizmente, ainda encontra eco em mentes cansadas
da complexidade do real.
As
instituições brasileiras, do Supremo Tribunal Federal às pequenas câmaras
municipais, foram submetidas a um teste de estresse sem precedentes. A
tentativa de normalizar o absurdo e de dar verniz democrático a impulsos
autoritários deixou cicatrizes que não fecharão com simples discursos de
pacificação. O patriotismo de fachada, adornado com bandeiras estrangeiras e
uma bizarra fixação por armamentos, revelou-se um projeto de exclusão, onde o
'outro' não é apenas um adversário, mas um inimigo a ser aniquilado.
Reconstruir
o país exige mais do que apenas trocar o ocupante do Palácio do Planalto;
demanda uma faxina profunda nas estruturas que permitiram a ascensão da
barbárie. É necessário resgatar a ética pública da lama do populismo messiânico
e devolver à política o seu papel de mediação de conflitos, e não de
combustível para o ódio. O caminho é longo e tortuoso, mas como dizia o mestre,
a verdade liberta — desde que não seja a 'verdade' fabricada em grupos de
mensagens monitorados por algoritmos de manipulação.




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