quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O BOLSONARISMO E A EROSÃO DO RACIONALISMO POLÍTICO

Entre o culto à personalidade e a fragilização das instituições, o Brasil tenta redescobrir o significado de República.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Patriotismo de verdade defende o povo, não um mito.
Observar o cenário político brasileiro contemporâneo é como analisar os escombros de uma construção que, embora parecesse sólida, foi corroída por dentro por cupins ideológicos. O bolsonarismo não foi apenas um fenômeno eleitoral passageiro; ele se manifestou como uma patologia institucional que buscou, de forma metódica, desgastar as engrenagens da democracia sob o pretexto de uma 'liberdade' que só vale para os seus convertidos. A ironia, essa velha senhora, sorri ao ver que os mesmos que bradavam contra o sistema hoje se agarram às suas brechas para evitar o rigor da lei.

A instrumentalização da fé, um dos pilares desse movimento, transformou púlpitos em palanques, sequestrando a espiritualidade alheia em nome de um projeto de poder terreno e, muitas vezes, sombrio. É fascinante — no sentido mais aterrorizante da palavra — perceber como a moral seletiva tornou-se a moeda de troca oficial. Enquanto se pregava a defesa da família, as políticas públicas de proteção social eram desidratadas, e o abismo da desigualdade, esse nosso velho conhecido, ganhava novas e profundas camadas de descaso.

No Maranhão, e especificamente em nossa São Luís, vimos os reflexos dessa onda chegar com o vigor de uma ressaca destrutiva. Alianças improváveis foram costuradas no calor do oportunismo, unindo o discurso de 'renovação' com as práticas mais arcaicas do coronelismo digital. O uso de milícias digitais para assassinar reputações tornou-se o método padrão, substituindo o debate de ideias pela metralhadora giratória de fake news que, infelizmente, ainda encontra eco em mentes cansadas da complexidade do real.

As instituições brasileiras, do Supremo Tribunal Federal às pequenas câmaras municipais, foram submetidas a um teste de estresse sem precedentes. A tentativa de normalizar o absurdo e de dar verniz democrático a impulsos autoritários deixou cicatrizes que não fecharão com simples discursos de pacificação. O patriotismo de fachada, adornado com bandeiras estrangeiras e uma bizarra fixação por armamentos, revelou-se um projeto de exclusão, onde o 'outro' não é apenas um adversário, mas um inimigo a ser aniquilado.

Reconstruir o país exige mais do que apenas trocar o ocupante do Palácio do Planalto; demanda uma faxina profunda nas estruturas que permitiram a ascensão da barbárie. É necessário resgatar a ética pública da lama do populismo messiânico e devolver à política o seu papel de mediação de conflitos, e não de combustível para o ódio. O caminho é longo e tortuoso, mas como dizia o mestre, a verdade liberta — desde que não seja a 'verdade' fabricada em grupos de mensagens monitorados por algoritmos de manipulação.

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