| Fuga do 'comunismo' para viver sob a proteção do Estado |
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
No fim das contas, a máxima que rege esse comportamento é tão antiga quanto a própria elite brasileira: 'socialismo para mim, bolsonarismo para vocês'. Querem a proteção do Estado social europeu, mas desejam a barbárie neoliberal e o autoritarismo de costumes para quem ficou para trás. É um exílio de conveniência, financiado pela mesma hipocrisia que permite a alguém se dizer patriota enquanto foge do próprio país para não ter que conviver com a democracia que ajudou a degradar.
É fascinante
notar o fenômeno migratório de certa elite barulhenta que, jurando amor eterno
à bandeira que 'jamais será vermelha', apressou-se em despachar malas e
convicções para as terras de Camões. O argumento, invariavelmente, é a fuga de
um suposto 'comunismo' brasileiro. Contudo, a escolha do destino revela uma
ironia fina: Portugal, o país que durante anos foi o laboratório de sucesso de
uma coalizão de esquerda — a famosa Geringonça — e que mantém, em seu DNA
institucional, um compromisso inegociável com o Estado de Bem-Estar Social que
essa mesma turma tenta implodir no Brasil.
Essa
diáspora verde-amarela não busca a 'liberdade' econômica selvagem que professa
em grupos de WhatsApp; busca, na verdade, a estabilidade de um país onde as
instituições funcionam. O bolsonarista 'exilado' em Cascais ou Lisboa é um
entusiasta do nacionalismo de fachada, mas, na hora do aperto, prefere a
civilidade de um governo que investe em saúde pública, transporte de qualidade
e segurança — pilares mantidos por décadas de políticas progressistas e
social-democratas que eles tanto abominam no discurso doméstico.
A grande
verdade é que esses migrantes de ocasião sabem exatamente o que estão fazendo.
Eles escolheram Portugal porque os governos socialistas e de centro-esquerda
europeus, ao contrário da extrema-direita que eles apoiam no Brasil, não
estimulam o ódio visceral contra o imigrante. Eles fogem da xenofobia que eles
próprios ajudaram a fermentar por aqui, sabendo que, sob um governo com viés
humanista, serão tratados com a dignidade que negam aos seus semelhantes em
território nacional. É a segurança de ser 'o outro' em um país que respeita os
direitos humanos.
Assistimos,
assim, ao ápice da esperteza travestida de ideologia. Não há coragem no
abandono da 'pátria amada' para usufruir dos bônus de uma sociedade pacificada
pela social-democracia. Há, sim, um cálculo cínico. Eles apreciam a vida em
países onde os políticos precisam apresentar resultados concretos para se
manterem no poder, longe do messianismo vazio e das cortinas de fumaça morais
que paralisam o debate público brasileiro. Em Portugal, o Estado funciona; no
Brasil que eles defendem, o Estado serve apenas para perseguir moinhos de vento
ideológicos.




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