Entre fraudes aritméticas e o contraste ético
no Alvorada, o teatro político tenta requentar velhas lendas para esconder a
falta de projeto.
Jornalista e Colunista
| De Ferrari de ouro a dono da Friboi: a fábrica de fake news. |
O mais
irônico de toda essa balbúrdia é que o sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o
Lulinha, já é passado. Autorizado pelo ministro André Mendonça — indicado, vale
lembrar, pelo governo anterior — a pedido da Polícia Federal, o acesso aos
dados bancários e fiscais já é uma realidade jurídica desde janeiro. Ou seja, o
show de horrores na CPMI foi um teatro vazio, uma encenação para alimentar as
bolhas de WhatsApp com o 'sangue' de um inimigo imaginário, enquanto as instituições
sérias, como a PF, já conduzem o inquérito sem precisar de gritos ou infrações
regimentais.
É preciso
revisitar o folclore político brasileiro para entender o porquê de tanto
barulho. Lulinha habita o imaginário da extrema-direita como uma mistura de Rei
Midas e herdeiro de impérios fantásticos. Já foi dono da Friboi, proprietário
de Ferraris de ouro e de um jato particular mais suntuoso que o do Batman, tudo
no campo da ficção pura. A tática de 'jogar tudo no ventilador' na CPMI visa
ressuscitar esses fantasmas, ignorando que o direito ao devido processo legal
não é um privilégio, mas uma garantia constitucional. O mantra 'quem não deve
não teme' é a muleta preferida do autoritarismo para atropelar o direito de
defesa.
Enquanto a oposição se perde em socos e contagens fraudulentas, o contraste de posturas republicanas salta aos olhos. Lulinha não fugiu; colocou-se à disposição do STF para prestar esclarecimentos, exigindo apenas o óbvio: saber do que está sendo acusado. É um contraste gritante com a postura de clãs políticos que, diante da iminência de investigações sobre os seus, preferiram trocar o comando da Polícia Federal ou mobilizar o aparato estatal para blindar a prole. A diferença entre o privilégio e o direito reside, justamente, na submissão às regras do jogo, mesmo quando elas são duras.
A fala do presidente Lula encerra o debate com uma lucidez que falta aos seus detratores. Ao afirmar que 'se o filho estiver envolvido, pagará por isso', Lula restabelece a fronteira entre o afeto familiar e a ética pública. Diferente do antecessor, que tratava qualquer investigação contra seus filhos como uma perseguição pessoal e institucional, o atual mandatário sinaliza que ninguém está acima da lei. No fim das contas, a CPMI pode continuar seu circo, mas a verdade histórica e jurídica costuma ser alérgica a palhaçadas e fraudes de plenário.




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