segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A RENÚNCIA FISCAL EM NOME DE JESUS

O dízimo é para Deus, o imposto é para o cidadão.

Enquanto o cidadão comum sustenta o peso da máquina pública, o lobby religioso blinda fortunas sob o manto da imunidade constitucional e da barganha política.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Justiça tributária pressupõe que todos contribuam para o bem comum conforme sua capacidade. No entanto, o lobby religioso construiu uma casta de intocáveis. Ao questionar esses privilégios, o jornalista ou o político é imediatamente carimbado como 'inimigo da fé'. Mas a pergunta que fica para a nossa democracia é: até quando o misticismo será usado como álibi para a acumulação de capital sem contrapartida social? Defender a laicidade do Estado é, acima de tudo, garantir que o César receba o que é de César, sem que os mercadores do templo fiquem com a parte que deveria pertencer ao povo.

No Brasil, o conceito de Estado Laico parece ser interpretado por Brasília como uma licença poética para o assistencialismo tributário às grandes denominações religiosas. É fascinante — para não dizer trágico — observar como a fé, no sentido estrito da palavra, se transformou em um dos ativos mais rentáveis do mercado financeiro nacional. Enquanto o trabalhador médio destina quase metade do seu ano apenas para quitar impostos sobre consumo e renda, os impérios da fé gozam de uma blindagem que faria qualquer CEO da Faria Lima chorar de inveja. A imunidade tributária, prevista originalmente para proteger o direito ao culto, tornou-se o duto por onde escorrem bilhões que deixam de financiar saúde e educação.

O chamado lobby religioso, operado com maestria pela 'bancada da bíblia', não se contenta mais apenas com a imunidade constitucional sobre templos. A ofensiva agora é sobre a ampliação dessas isenções para as empresas satélites: emissoras de rádio, TV e até o patrimônio pessoal de líderes que pregam a humildade enquanto desfilam em jatos particulares. A barganha é explícita. Em troca de apoio parlamentar e da manutenção de uma base eleitoral dócil e fiel, o Executivo e o Legislativo costumam abrir mão de bilhões em arrecadação. É o toma-lá-dá-cá em nome de Deus, onde a salvação eterna é vendida no altar e a conta é enviada para o Ministério da Fazenda.

O que vemos hoje é uma distorção perversa da justiça social. Se a carga tributária brasileira é regressiva — ou seja, pesa proporcionalmente mais sobre quem tem menos — a isenção irrestrita aos negócios religiosos acentua esse abismo. Não se trata de perseguir crenças, mas de fiscalizar o fluxo de capital que circula em estruturas que operam como verdadeiras holdings empresariais. Quando uma igreja deixa de pagar IPTU sobre um terreno de luxo ou contribuições previdenciárias sobre os salários de seus 'colaboradores', ela está, na prática, sendo subsidiada pelo contribuinte agnóstico, católico, espírita ou de matriz africana que, ironicamente, nem sempre goza do mesmo prestígio político.

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