terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A ANATOMIA DA CRISE ENTRE OS PODERES

O Brasil precisa de menos liminares e mais diálogo.
Uma análise sobre o desenho institucional brasileiro e os riscos da judicialização da política e da reação do Legislativo.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

O Brasil atravessa um momento de redefinição das fronteiras entre suas principais instituições. O que assistimos não é apenas uma disputa de egos entre figuras públicas, mas um rearranjo tectônico no equilíbrio entre o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e o Poder Executivo. As instituições, que deveriam funcionar como freios e contrapesos, têm sido levadas ao limite de suas competências constitucionais, gerando um ambiente de incerteza que transborda para a economia e a segurança jurídica.

Historicamente, o Supremo Tribunal Federal assumiu um papel protagonista ao preencher vácuos deixados por um Legislativo muitas vezes paralisado ou fragmentado. Contudo, essa ocupação de espaço — o que chamamos de judicialização da política — provocou uma reação institucional simétrica. O Congresso, sentindo sua prerrogativa de representar a vontade popular ameaçada, passou a articular medidas de contenção, como Propostas de Emenda à Constituição que visam limitar mandatos e decisões monocráticas dos ministros. O conflito, portanto, é estrutural.

O grande risco desse cenário reside na erosão da previsibilidade. Em uma democracia saudável, as regras do jogo devem ser estáveis. Quando as decisões de Estado passam a depender excessivamente de liminares individuais ou de manobras regimentais de última hora, o investidor retrai, as políticas públicas perdem continuidade e o cidadão comum perde a referência de quem realmente detém a autoridade para decidir sobre sua vida. A estabilidade institucional é um ativo econômico tão importante quanto o controle da inflação.

Além disso, é preciso observar como a regulação da informação e o combate à desinformação entraram nesse tabuleiro. O esforço institucional para proteger a democracia tem sido utilizado por críticos para questionar a liberdade de expressão, enquanto, do outro lado, o uso das redes sociais para atacar a integridade dos tribunais desafia o Estado de Direito. O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio onde o controle do abuso não se transforme em silenciamento, e onde a crítica política não se torne um incentivo ao colapso das instituições.

A saída para essa crise não virá de uma vitória total de um Poder sobre o outro, o que seria fatal para o sistema republicano. A maturidade institucional exige o retorno à liturgia e ao respeito às competências originais. Sem o reconhecimento mútuo de legitimidade, o sistema trava. Precisamos de instituições fortes, não de personalismos que se sobrepõem ao interesse público.

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