| Uso da democracia para destruir a Democracia. |
Como o extremismo abandonou o cercadinho para
ditar as regras no coração da República, sob o manto de uma falsa normalidade
democrática.
Por: Altair Inácio
Houve um tempo, não tão distante, em que o radicalismo era o inquilino barulhento do porão da democracia. Hoje, ele ocupa a sala de estar, senta-se à cabeceira da mesa e exige ser chamado de Excelência. A institucionalização do radicalismo não foi um acidente de percurso, mas um projeto meticuloso de ocupação de espaços que outrora exigiam decoro e, minimamente, um compromisso com a verdade factual. O que víamos nas redes sociais como 'meme' de gosto duvidoso transformou-se em requerimento legislativo e política pública de retaliação.
Assistimos,
com uma mistura de tédio e pavor, à transformação de comissões parlamentares em
palcos de stand-up para a extrema-direita. O objetivo nunca foi legislar para o
bem comum, mas sim alimentar o algoritmo e manter a horda em transe. A
estratégia é cristalina: paralisar o Estado por dentro, usando as próprias
ferramentas democráticas para corroer os pilares da justiça social. É a
hipocrisia elevada à categoria de arte burocrática, onde quem clama por
'liberdade' é o primeiro a redigir o projeto de censura contra quem pensa
diferente.
O
bolsonarismo, enquanto fenômeno sociológico, logrou êxito em algo que a
ditadura militar não conseguiu de forma tão capilarizada: convencer uma parcela
da população de que a barbárie é uma forma legítima de patriotismo. A
radicalização institucionalizou-se nos conselhos tutelares, nas câmaras
municipais e nos corredores de Brasília, criando uma rede de proteção para o
absurdo. Quando o ataque às instituições parte de quem deveria protegê-las, o
sistema entra em colapso silencioso, enquanto o cidadão comum tenta decifrar se
o que vê na TV é o Diário Oficial ou um roteiro de distopia.
Não basta
mais sermos apenas reativos. A esquerda crítica e as forças democráticas
precisam entender que o adversário não está mais apenas 'batendo na porta'; ele
já trocou as fechaduras. Combater essa institucionalização exige mais do que
notas de repúdio; demanda a coragem de expor a vacuidade desses discursos e a
firmeza de retomar as instituições para o serviço da maioria, e não para o
deleite dos que odeiam a pluralidade. O silêncio, nesse cenário, não é
prudência, é cumplicidade com o desmonte.




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