quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O EXTREMISMO SAIU DAS SOMBRAS E ASSUMIU O PODER

Uso da democracia para destruir a Democracia.

Como o extremismo abandonou o cercadinho para ditar as regras no coração da República, sob o manto de uma falsa normalidade democrática.

Por: Altair Inácio

 Jornalista e Colunista

Houve um tempo, não tão distante, em que o radicalismo era o inquilino barulhento do porão da democracia. Hoje, ele ocupa a sala de estar, senta-se à cabeceira da mesa e exige ser chamado de Excelência. A institucionalização do radicalismo não foi um acidente de percurso, mas um projeto meticuloso de ocupação de espaços que outrora exigiam decoro e, minimamente, um compromisso com a verdade factual. O que víamos nas redes sociais como 'meme' de gosto duvidoso transformou-se em requerimento legislativo e política pública de retaliação.

Assistimos, com uma mistura de tédio e pavor, à transformação de comissões parlamentares em palcos de stand-up para a extrema-direita. O objetivo nunca foi legislar para o bem comum, mas sim alimentar o algoritmo e manter a horda em transe. A estratégia é cristalina: paralisar o Estado por dentro, usando as próprias ferramentas democráticas para corroer os pilares da justiça social. É a hipocrisia elevada à categoria de arte burocrática, onde quem clama por 'liberdade' é o primeiro a redigir o projeto de censura contra quem pensa diferente.

O bolsonarismo, enquanto fenômeno sociológico, logrou êxito em algo que a ditadura militar não conseguiu de forma tão capilarizada: convencer uma parcela da população de que a barbárie é uma forma legítima de patriotismo. A radicalização institucionalizou-se nos conselhos tutelares, nas câmaras municipais e nos corredores de Brasília, criando uma rede de proteção para o absurdo. Quando o ataque às instituições parte de quem deveria protegê-las, o sistema entra em colapso silencioso, enquanto o cidadão comum tenta decifrar se o que vê na TV é o Diário Oficial ou um roteiro de distopia.

Não basta mais sermos apenas reativos. A esquerda crítica e as forças democráticas precisam entender que o adversário não está mais apenas 'batendo na porta'; ele já trocou as fechaduras. Combater essa institucionalização exige mais do que notas de repúdio; demanda a coragem de expor a vacuidade desses discursos e a firmeza de retomar as instituições para o serviço da maioria, e não para o deleite dos que odeiam a pluralidade. O silêncio, nesse cenário, não é prudência, é cumplicidade com o desmonte.

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