Entre alianças de conveniência e o silenciamento das periferias, São Luís assiste a um teatro político onde o figurino muda, mas o roteiro de exclusão permanece o mesmo.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| Política é sobre quem realmente entrega dignidade. |
São Luís sempre foi um laboratório peculiar de contradições. Na nossa 'Atenas Brasileira', a erudição dos azulejos coloniais frequentemente esbarra na truculência de uma política que ainda cheira a mofo e coronelismo disfarçado de modernidade. O que vemos hoje nos bastidores da Praça Dom Pedro II é uma dança de cadeiras onde a ideologia é o par que ninguém quer convidar para o baile. As alianças se formam não por projetos de cidade, mas por sobrevivência de castas que se revezam no poder, enquanto o povo assiste a tudo da plateia, muitas vezes aplaudindo o próprio algoz.
É fascinante
— e uso o termo com a acidez de quem conhece o riscado — observar como o
bolsonarismo, mesmo quando tenta se camuflar sob uma roupagem técnica ou
moderada, impregna o discurso local. A instrumentalização da fé tornou-se a
ferramenta favorita dos que nada têm a oferecer em termos de políticas
públicas. Vemos candidatos que transformam púlpitos em palanques, vendendo uma
moralidade seletiva que ignora a fome no Coroadinho ou a falta de saneamento na
Cidade Operária, mas que se inflama diante de pautas de costumes fabricadas
para gerar engajamento em grupos de WhatsApp.
A
comunicação política em São Luís atingiu um nível de sofisticação mercadológica
que beira o cinismo. É a política do 'asfalto de véspera', onde o buraco tapado
na semana da eleição serve de moldura para o selfie do gestor sorridente.
Enquanto isso, as questões estruturais que realmente castigam o ludovicense —
como o transporte público caótico e o esvaziamento do Centro Histórico — são
tratadas com o paliativo do marketing. A manipulação da opinião pública através
de fake news não é mais um acidente de percurso, é o motor principal de certas
candidaturas que preferem o caos informacional ao debate de ideias.
Não podemos
ignorar a hipocrisia das alianças que unem o que há de mais retrógrado na
política maranhense com discursos pretensamente progressistas. São os
'casamentos de conveniência' que visam apenas o Orçamento Secreto ou o controle
de secretarias estratégicas. Para o cidadão comum, sobra a conta de uma máquina
pública inchada e ineficiente, que prioriza o bem-estar dos aliados em
detrimento do servidor de carreira e do usuário do transporte público. A ética
pública, nesse cenário, torna-se um conceito tão antigo quanto os nossos
poetas, mas bem menos praticado.
A verdadeira São Luís, aquela que pulsa para além dos Palácio de La Ravardière e dos Leões, clama por uma ruptura com esse ciclo de promessas vazias e moralismo de fachada. O progresso não virá de quem usa o nome de Deus em vão para esconder a ausência de um plano diretor sério. Virá, se vier, de uma consciência crítica que recusa o pão e circo das inaugurações de praças enquanto os hospitais seguem em colapso silencioso. A política não é um espetáculo de ilusionismo, embora muitos em nossa ilha insistam em agir como se fossem grandes mágicos do erário.




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