terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A MAQUIAGEM DOS CASARÕES E A MIOPIA DOS LEÕES

A Ilha Rebelde anda silenciosa demais 

Entre o asfalto eleitoral e a oração de conveniência, São Luís tateia em busca de uma identidade política que vá além do marketing de vitrine.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Circular pelas ruas de São Luís em tempos de pré-campanha é um exercício de paciência e observação semiótica. A capital maranhense, historicamente conhecida pela efervescência de suas lutas sociais e pela resistência cultural, parece ter sido sequestrada por uma estética de gestão que privilegia a tinta fresca sobre o reboco podre. É a política do 'parecer ser', onde uma camada de asfalto novo esconde, por apenas alguns meses, a ausência de um projeto estruturante de cidade que contemple a periferia esquecida e o transporte público moribundo.

A atual gestão municipal, mestre na arte da comunicação asséptica, navega em águas calmas, beneficiando-se de uma oposição que, embora barulhenta, ainda não conseguiu costurar uma narrativa que fale ao coração do ludovicense comum. Há um cheiro de naftalina nas alianças que se desenham nos bastidores: velhos caciques tentando se repaginar e novos nomes que, por trás do brilho digital, carregam o DNA das mesmas oligarquias que sempre viram São Luís como um quintal de interesses privados sob a justificativa do bem público.

Não podemos ignorar a perigosa instrumentalização da fé que tem ganhado terreno nos bairros da Ilha. O uso da pauta moral como escudo contra críticas administrativas é uma estratégia velha, mas que ainda colhe frutos em um eleitorado cansado e desinformado. Quando o debate público se desloca da eficiência da saúde para a 'defesa dos valores', quem perde é o cidadão que espera na fila do Socorrão. A hipocrisia de usar o altar como palanque é a marca registrada de um conservadorismo que só se preocupa com a família quando ela serve para estampar um santinho eleitoral.

Enquanto isso, o Palácio dos Leões observa o tabuleiro com a cautela de quem sabe que a capital é o termômetro do estado. A fragmentação das forças progressistas na cidade é o maior presente que o status quo poderia receber. Em vez de uma frente ampla que discuta desigualdade, mobilidade urbana e o renascimento do Centro Histórico, assistimos a um festival de vaidades onde cada pequeno grupo prefere ser cabeça de formiga a ser parte de um corpo capaz de transformar a realidade política da cidade.

São Luís merece mais do que ser um cenário de propaganda no Instagram. A 'Ilha Rebelde' precisa resgatar sua essência crítica e exigir que o debate eleitoral saia da superfície das praças reformadas e entre na profundidade das fossas abertas nos bairros periféricos. A política não pode ser apenas a arte de gerenciar o orçamento para garantir a reeleição; ela deve ser, antes de tudo, o compromisso ético de reduzir o abismo que separa a Ponta d'Areia da Cidade Operária. Até lá, continuaremos assistindo a essa peça de teatro onde o figurino é impecável, mas o roteiro é uma repetição enfadonha do passado.

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site