| A Ilha Rebelde anda silenciosa demais |
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
Circular
pelas ruas de São Luís em tempos de pré-campanha é um exercício de paciência e
observação semiótica. A capital maranhense, historicamente conhecida pela
efervescência de suas lutas sociais e pela resistência cultural, parece ter
sido sequestrada por uma estética de gestão que privilegia a tinta fresca sobre
o reboco podre. É a política do 'parecer ser', onde uma camada de asfalto novo
esconde, por apenas alguns meses, a ausência de um projeto estruturante de
cidade que contemple a periferia esquecida e o transporte público moribundo.
A atual
gestão municipal, mestre na arte da comunicação asséptica, navega em águas
calmas, beneficiando-se de uma oposição que, embora barulhenta, ainda não
conseguiu costurar uma narrativa que fale ao coração do ludovicense comum. Há
um cheiro de naftalina nas alianças que se desenham nos bastidores: velhos
caciques tentando se repaginar e novos nomes que, por trás do brilho digital,
carregam o DNA das mesmas oligarquias que sempre viram São Luís como um quintal
de interesses privados sob a justificativa do bem público.
Não podemos
ignorar a perigosa instrumentalização da fé que tem ganhado terreno nos bairros
da Ilha. O uso da pauta moral como escudo contra críticas administrativas é uma
estratégia velha, mas que ainda colhe frutos em um eleitorado cansado e
desinformado. Quando o debate público se desloca da eficiência da saúde para a
'defesa dos valores', quem perde é o cidadão que espera na fila do Socorrão. A
hipocrisia de usar o altar como palanque é a marca registrada de um
conservadorismo que só se preocupa com a família quando ela serve para estampar
um santinho eleitoral.
Enquanto
isso, o Palácio dos Leões observa o tabuleiro com a cautela de quem sabe que a
capital é o termômetro do estado. A fragmentação das forças progressistas na
cidade é o maior presente que o status quo poderia receber. Em vez de uma
frente ampla que discuta desigualdade, mobilidade urbana e o renascimento do
Centro Histórico, assistimos a um festival de vaidades onde cada pequeno grupo
prefere ser cabeça de formiga a ser parte de um corpo capaz de transformar a
realidade política da cidade.
São Luís
merece mais do que ser um cenário de propaganda no Instagram. A 'Ilha Rebelde'
precisa resgatar sua essência crítica e exigir que o debate eleitoral saia da
superfície das praças reformadas e entre na profundidade das fossas abertas nos
bairros periféricos. A política não pode ser apenas a arte de gerenciar o
orçamento para garantir a reeleição; ela deve ser, antes de tudo, o compromisso
ético de reduzir o abismo que separa a Ponta d'Areia da Cidade Operária. Até
lá, continuaremos assistindo a essa peça de teatro onde o figurino é impecável,
mas o roteiro é uma repetição enfadonha do passado.




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