terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A PROPOSTA DO ITAÚ QUE PREVÊ CORTE NO SOCIAL PARA ATINGIR SUPERÁVIT

O mercado quer superávit, mas quem paga a conta?
O contraste entre o corte de privilégios e o desmonte de garantias sociais na proposta de ajuste fiscal para 2028.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

A proposta recentemente apresentada pelo Banco Itaú e veiculada pelo Valor Econômico traça um caminho ambicioso para o Brasil atingir um superávit de 1,3% do PIB até 2028. No entanto, o plano é um compêndio de ajustes fiscais profundos que, embora apresente pontos necessários de contenção de privilégios, concentra a maior parte do seu fôlego de economia na compressão de direitos básicos e programas de transferência de renda que sustentam a base da pirâmide social brasileira.

Ao sugerir a desindexação do salário mínimo e a limitação de gastos com saúde e educação apenas pelo IPCA, a proposta ignora que esses mecanismos não são meras rubricas contábeis, mas garantias constitucionais de dignidade. A mudança na idade mínima da previdência para 68 anos e a redução do público do Bolsa Família atingem diretamente aqueles que possuem menos proteção contra as flutuações do mercado de trabalho. Toda narrativa pede uma pergunta básica: quem ganha com isso? Certamente não é o trabalhador rural ou a família que depende do 'Minha Casa, Minha Vida'.

O dado existe, mas o contexto foi omitido quando olhamos para a balança de sacrifícios. É verdade que o documento menciona a regulamentação de supersalários, a reforma da previdência militar e a limitação de emendas parlamentares e subsídios ao agro. Contudo, tentar conferir um ar de imparcialidade a um projeto que, no fundo, preserva a estrutura de juros da dívida pública e a ausência de taxação progressiva sobre o topo, que drenam recursos astronômicos sem passar pelo mesmo escrutínio rigoroso que o seguro-desemprego ou o programa Pé-de-Meia.

Um ajuste fiscal que não prioriza o enfrentamento aos juros reais ou aos subsídios ineficientes para setores já favorecidos, preferindo atacar a rede de proteção social, revela uma escolha política clara sob o manto da técnica. Informação não é torcida; é o meio pelo qual percebemos que a eficiência econômica deve caminhar com a justiça social.

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