| O mercado quer superávit, mas quem paga a conta? |
Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista
A proposta
recentemente apresentada pelo Banco Itaú e veiculada pelo Valor Econômico traça
um caminho ambicioso para o Brasil atingir um superávit de 1,3% do PIB até
2028. No entanto, o plano é um compêndio de ajustes fiscais profundos que,
embora apresente pontos necessários de contenção de privilégios, concentra a
maior parte do seu fôlego de economia na compressão de direitos básicos e
programas de transferência de renda que sustentam a base da pirâmide social
brasileira.
Ao sugerir a
desindexação do salário mínimo e a limitação de gastos com saúde e educação
apenas pelo IPCA, a proposta ignora que esses mecanismos não são meras rubricas
contábeis, mas garantias constitucionais de dignidade. A mudança na idade
mínima da previdência para 68 anos e a redução do público do Bolsa Família
atingem diretamente aqueles que possuem menos proteção contra as flutuações do
mercado de trabalho. Toda narrativa pede uma pergunta básica: quem ganha com
isso? Certamente não é o trabalhador rural ou a família que depende do 'Minha
Casa, Minha Vida'.
O dado
existe, mas o contexto foi omitido quando olhamos para a balança de
sacrifícios. É verdade que o documento menciona a regulamentação de
supersalários, a reforma da previdência militar e a limitação de emendas
parlamentares e subsídios ao agro. Contudo, tentar conferir um ar de
imparcialidade a um projeto que, no fundo, preserva a estrutura de juros da
dívida pública e a ausência de taxação progressiva sobre o topo, que drenam
recursos astronômicos sem passar pelo mesmo escrutínio rigoroso que o
seguro-desemprego ou o programa Pé-de-Meia.
Um ajuste
fiscal que não prioriza o enfrentamento aos juros reais ou aos subsídios
ineficientes para setores já favorecidos, preferindo atacar a rede de proteção
social, revela uma escolha política clara sob o manto da técnica. Informação
não é torcida; é o meio pelo qual percebemos que a eficiência econômica deve
caminhar com a justiça social.




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