Enquanto líderes religiosos distorcem a
realidade para atacar os mais pobres, os dados provam que o Bolsa Família é
ponte para a dignidade, não vício.O problema do Brasil é o salário baixo e a falta
de vaga,
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
É revoltante ver quem vive no conforto de templos climatizados apontar o dedo para a mesa vazia do povo brasileiro. O pastor Hernandes Dias Lopes resolveu destilar o velho preconceito da elite contra os mais pobres ao afirmar que o Bolsa Família é uma 'maldição' que gera preguiça. Dizer que conhece 'centenas de pessoas' que não querem trabalhar por causa de um auxílio que mal paga o rancho do mês não é apenas um equívoco; é uma desonestidade intelectual profunda que ignora a luta diária de quem acorda às cinco da manhã para sobreviver.
Vamos aos fatos, porque contra a ideologia do ódio, a gente usa a verdade. A imensa maioria dos beneficiários do Bolsa Família trabalha, sim. Mas trabalha na informalidade, sem carteira assinada, sem férias e sem o FGTS que o pastor certamente valoriza. São mulheres que fazem faxina, homens que carregam peso no sol quente e vendedores ambulantes que completam a renda com o auxílio para não verem seus filhos passarem fome. Chamar a ajuda que garante o feijão de 'mentalidade de miséria' é de uma crueldade sem tamanho, especialmente vindo de quem deveria pregar a compaixão.
O programa
nunca foi um prêmio para o ócio. Ele tem regras rígidas de saúde e educação que
mudaram a cara do Brasil e do Maranhão e de tantos outros estados esquecidos
pelo poder público. Só em 2025, mais de 2 milhões de famílias deixaram o
programa voluntariamente porque conseguiram melhorar de renda. Isso prova, por
A mais B, que o Bolsa Família funciona como uma ponte: ninguém quer viver de
auxílio se tiver a oportunidade de um emprego digno com salário justo. O
problema do Brasil não é o 'conformismo', é a falta de oportunidade e o salário
de fome.
E tem mais:
o pastor cita o mandamento de trabalhar seis dias e descansar um. É curioso ver
esse rigor bíblico ser cobrado apenas das costas do trabalhador pobre. Será que
a cúpula das igrejas segue essa jornada exaustiva de seis dias de trabalho
braçal antes de usufruir do descanso? A verdade é que a escala 6x1, que tanto
defendem para os outros, é uma escravidão moderna que adoece o povo. Usar a
Bíblia para validar a exploração de quem não tem nada é uma perversão do que
deveria ser o Evangelho.
Não podemos aceitar que o direito à alimentação seja tratado como maldição. Maldição é a desigualdade que permite que uns tenham jatinhos enquanto outros dependem de poucos reais para não morrer de inanição. A solução não passa por cortar o auxílio, mas por garantir uma política de valorização do salário mínimo e a geração de empregos reais. Precisamos cobrar que o debate público seja pautado em dados, não em anedotas de púlpito que só servem para humilhar quem já é humilhado pelo sistema. Até quando vamos permitir que a fé seja usada como chicote contra os mais vulneráveis?




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