quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

PLATAFORMAS DIGITAIS LUCRAM COM O CAOS

A lei deve valer para todos, inclusive algoritmos.

Um olhar técnico sobre a necessidade de marcos regulatórios para conter o poder desmedido das Big Techs no Brasil


Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista.

Precisamos superar a fase dos slogans apaixonados e encarar a complexidade técnica do tema. A democracia exige que o poder seja exercido de forma transparente e esteja sujeito ao escrutínio das leis produzidas pelos representantes eleitos do povo. As redes deixaram de ser meros repositórios de dados para se tornarem as novas praças públicas; permitir que elas funcionem sem supervisão é abdicar da própria soberania nacional.

O debate sobre a regulação das plataformas digitais no Brasil tem sido sistematicamente sequestrado por uma dicotomia rasa entre liberdade de expressão e censura. No entanto, ao analisarmos o cenário global, percebemos que a ausência de regras claras não favorece o cidadão comum, mas sim os algoritmos de grandes empresas transnacionais que operam frequentemente acima das jurisdições locais. A soberania digital não é um capricho institucional, mas uma necessidade de defesa das bases democráticas diante de monopólios que monetizam o engajamento através do conflito.

Muitos críticos alegam que qualquer intervenção estatal prejudicaria a inovação tecnológica ou silenciaria vozes dissidentes. Contudo, o dado existe, mas o contexto foi omitido: as mesmas corporações que resistem à regulação no Brasil já se submetem a legislações rigorosas em blocos como a União Europeia, através do Digital Services Act (DSA). A disparidade de tratamento entre o mercado europeu e o sul-americano sugere que o problema não reside na viabilidade técnica da moderação de conteúdo, mas no desejo de manter o Brasil como um território de baixa responsabilidade civil e alta lucratividade.

Quando se discute soberania no século XXI, estamos debatendo quem detém o poder real de decisão sobre o que circula no espaço público. Atualmente, esse poder está concentrado em conselhos de administração sediados no Vale do Silício, cujos interesses financeiros nem sempre são compatíveis com a estabilidade política brasileira. A regulação proposta busca instituir o dever de cuidado, obrigando as plataformas a agir contra crimes já previstos no Código Penal — como o incentivo à violência e ataques contra crianças —, algo que é exigido de qualquer outro setor da economia nacional.

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