| O estudo do poder através do orçamento. |
Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista.
A economia
política não se resume à flutuação do câmbio ou às variações diárias do mercado
de capitais; ela é, essencialmente, o estudo de como as escolhas governamentais
alocam recursos escassos sob pressões institucionais divergentes. No Brasil, o
desenho do Orçamento da União é o palco principal desse embate. De um lado,
temos as demandas sociais historicamente represadas e a necessidade de
investimento público; de outro, as regras fiscais que buscam garantir a
solvência do Estado a longo prazo. Ignorar um desses polos é flertar com a
instabilidade institucional.
O atual
Arcabouço Fiscal, que substituiu o antigo Teto de Gastos, funciona como um
mecanismo de controle que vincula o crescimento das despesas ao desempenho da
receita. Essa estrutura técnica impõe um limite pedagógico aos gestores
públicos: a expansão do gasto não pode ser discricionária nem infinita. Quando
o Executivo sinaliza uma flexibilização dessas regras, o reflexo imediato é o
aumento do prêmio de risco, o que encarece o crédito para o setor produtivo e,
por consequência, freia o crescimento real da economia brasileira.
É preciso
entender que o Congresso Nacional desempenha um papel fundamental nesse
ecossistema. Com o aumento do controle legislativo sobre o orçamento por meio
das emendas, o Poder Executivo perdeu parte de sua capacidade de coordenação de
políticas públicas centralizadas. Hoje, o Orçamento é fragmentado, atendendo a
interesses paroquiais que muitas vezes colidem com as metas macroeconômicas
traçadas pelo Ministério da Fazenda. Essa disputa por espaço fiscal é o que
define, de fato, as prioridades de uma gestão.
Além disso,
a atuação das instituições reguladoras e do Banco Central como ente autônomo
introduz uma camada necessária de freios e contrapesos. A política monetária,
ao focar na meta de inflação, muitas vezes atua em sentido contrário ao estímulo
fiscal do governo. Esse descompasso gera tensões narrativas, mas é o
funcionamento pleno do desenho institucional que impede voos de galinha
econômicos, baseados em consumo artificial sem o lastro de produtividade ou
responsabilidade tributária.
A economia
política eficiente é aquela que consegue traduzir a responsabilidade fiscal em
justiça social, sem comprometer a estabilidade da moeda. Decisões baseadas
puramente em ideologia, sem o amparo técnico das contas públicas, tendem a
gerar crises de confiança que punem, primeiro e com mais força, as camadas mais
vulneráveis da população. O equilíbrio é delicado e exige pragmatismo, não
retórica partidária.




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