segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

VINI JR. 1 X 0 RACISMO: ATÉ QUANDO A UEFA VAI FINGIR QUE PROTOCOLO É SOLUÇÃO?

Entre o gol de placa e o insulto covarde, o futebol europeu reafirma seu pacto com a exclusão enquanto a mídia tenta explicar o que se recusa a sentir.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Vini Jr. faz o gol, o racismo faz a cena.
O roteiro já se tornou uma coreografia macabra: Vinícius Júnior balança as redes com a genialidade que lhe é peculiar e, em resposta, a mediocridade das arquibancadas e do gramado reage com o veneno do racismo. No Estádio da Luz, o brilho do gol foi rapidamente ofuscado pela covardia de Gianluca Prestianni que, ao esconder a boca com a camisa para proferir insultos, materializou a síntese do racismo institucional: o desejo de ferir sem deixar rastro, a agressão protegida pela sombra do VAR.

É fascinante — e uso o termo com a acidez necessária — observar como o sistema se mobiliza para proteger o agressor sob o manto da 'falta de provas'. Enquanto a UEFA designa inspetores e o Benfica ensaia notas de repúdio que mais parecem exercícios de relações públicas, Vini Jr. acumula sua vigésima denúncia em oito anos. Não se trata mais de incidentes isolados, como tentou sugerir a miopia do Felipe Luís, técnico do Flamengo, time que revelou o jogador, mas de um projeto de silenciamento contra um corpo negro que se recusa a ser meramente decorativo no palco da elite europeia.

A postura de José Mourinho, sugerindo que a comemoração do brasileiro seria uma provocação, é o suprassumo da hipocrisia moral que domina os bastidores do poder. É a velha tática de inverter a culpa, transformando a vítima em vilão para justificar a barbárie. Quando um técnico do seu quilate minimiza o racismo sob o pretexto da 'emoção do jogo', ele não está apenas analisando futebol; está fornecendo o salvo-conduto intelectual para que o próximo torcedor imite um macaco sem peso na consciência, como aconteceu durante o mesmo jogo.

O diagnóstico de Bruno Andrade, jornalista da CNN Portugal, sobre a mídia portuguesa é o golpe de misericórdia na narrativa da imparcialidade. Ver painéis compostos exclusivamente por homens brancos debatendo a dor de um homem negro é a prova cabal do racismo estrutural que nos asfixia. É a tentativa branca de pautar os limites da indignação alheia, decidindo o que é 'proporcional' ou 'exagerado' sem nunca ter sentido o açoite do preconceito na própria pele. O futebol, nesse aspecto, é apenas o microcosmo de uma sociedade que prefere discutir a etiqueta do protesto do que a urgência da justiça.

Do histórico do brasileiro Hulk (2009) e o maliano Moussa Marega (2020) às ofensas contra o italiano Balotelli (2012), o rastro de infâmia nos estádios portugueses e europeus é longo e persistente. Não basta que a FIFA se diga 'triste' ou que clubes identifiquem bodes expiatórios para salvar o CNPJ. O racismo só recuará quando o custo de ser racista for maior do que o prazer perverso da ofensa. Até lá, Vini Jr. continuará sendo o espelho incômodo que reflete a face mais feia de um continente que se orgulha de sua civilidade, mas que ainda não aprendeu a conviver com a liberdade negra.

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