Entre o gol de placa e o insulto covarde, o futebol europeu reafirma seu pacto com a exclusão enquanto a mídia tenta explicar o que se recusa a sentir.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
O roteiro já
se tornou uma coreografia macabra: Vinícius Júnior balança as redes com a
genialidade que lhe é peculiar e, em resposta, a mediocridade das arquibancadas
e do gramado reage com o veneno do racismo. No Estádio da Luz, o brilho do gol
foi rapidamente ofuscado pela covardia de Gianluca Prestianni que, ao esconder
a boca com a camisa para proferir insultos, materializou a síntese do racismo
institucional: o desejo de ferir sem deixar rastro, a agressão protegida pela
sombra do VAR.Vini Jr. faz o gol, o racismo faz a cena.
É fascinante
— e uso o termo com a acidez necessária — observar como o sistema se mobiliza
para proteger o agressor sob o manto da 'falta de provas'. Enquanto a UEFA
designa inspetores e o Benfica ensaia notas de repúdio que mais parecem
exercícios de relações públicas, Vini Jr. acumula sua vigésima denúncia em oito
anos. Não se trata mais de incidentes isolados, como tentou sugerir a miopia do
Felipe Luís, técnico do Flamengo, time que revelou o jogador, mas de um projeto
de silenciamento contra um corpo negro que se recusa a ser meramente decorativo
no palco da elite europeia.
A postura de
José Mourinho, sugerindo que a comemoração do brasileiro seria uma provocação,
é o suprassumo da hipocrisia moral que domina os bastidores do poder. É a velha
tática de inverter a culpa, transformando a vítima em vilão para justificar a
barbárie. Quando um técnico do seu quilate minimiza o racismo sob o pretexto da
'emoção do jogo', ele não está apenas analisando futebol; está fornecendo o
salvo-conduto intelectual para que o próximo torcedor imite um macaco sem peso
na consciência, como aconteceu durante o mesmo jogo.
O
diagnóstico de Bruno Andrade, jornalista da CNN Portugal, sobre a mídia
portuguesa é o golpe de misericórdia na narrativa da imparcialidade. Ver
painéis compostos exclusivamente por homens brancos debatendo a dor de um homem
negro é a prova cabal do racismo estrutural que nos asfixia. É a tentativa
branca de pautar os limites da indignação alheia, decidindo o que é
'proporcional' ou 'exagerado' sem nunca ter sentido o açoite do preconceito na
própria pele. O futebol, nesse aspecto, é apenas o microcosmo de uma sociedade
que prefere discutir a etiqueta do protesto do que a urgência da justiça.
Do histórico do brasileiro Hulk (2009) e o maliano Moussa Marega (2020) às ofensas contra o italiano Balotelli (2012), o rastro de infâmia nos estádios portugueses e europeus é longo e persistente. Não basta que a FIFA se diga 'triste' ou que clubes identifiquem bodes expiatórios para salvar o CNPJ. O racismo só recuará quando o custo de ser racista for maior do que o prazer perverso da ofensa. Até lá, Vini Jr. continuará sendo o espelho incômodo que reflete a face mais feia de um continente que se orgulha de sua civilidade, mas que ainda não aprendeu a conviver com a liberdade negra.




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