| Sangrar' ministros sem provas é apenas golpismo retórico. |
A estética
do 'fundo preto' já se tornou um gênero cinematográfico próprio na política
brasileira contemporânea. É o cenário ideal para quem não tem provas, mas sobra
em performance. Recentemente, um jovem deputado, mestre na arte da indignação
algorítmica, ressurgiu para lançar labaredas sobre o Supremo Tribunal Federal e
o governo Lula. O roteiro é clássico: conexões difusas, valores vultosos
citados sem contexto e a sugestão de que contratos profissionais legítimos são,
per se, evidências de um complô satânico. Ao evocar o filme '300' para dizer
que 'deuses podem sangrar', o parlamentar não está apenas fazendo uma metáfora
infeliz; ele está operando a substituição do devido processo legal pelo
linchamento digital.
O cerne das
acusações gira em torno do Banco Master, uma instituição que, embora sob
holofotes de investigações, parece servir como o 'éter' onde o deputado flutua
suas suspeitas. Alega-se que contratos de advocacia da esposa de um ministro ou
serviços prestados por um ex-ministro hoje na pasta da Justiça seriam provas de
corrupção. Ora, na lógica do parlamentar, exercer a advocacia ou possuir
relações contratuais privadas tornou-se um crime de 'proximidade'. É a tese da
'culpa por aproximação', onde não se aponta o ato ilícito específico, mas se
desenha uma teia de nomes famosos para que o espectador médio, já devidamente
radicalizado, complete o silogismo com o ódio de estimação habitual.
O que o
vídeo convenientemente omite é a distinção elementar entre processo e sentença.
No mundo real, regido pela Constituição que o deputado jurou defender, suspeita
não é condenação. O uso de pedidos de impeachment como ferramenta de marketing
para pressionar a presidência do Congresso é uma tese velha travestida de
novidade. Presidentes do Congresso são alvos dessa retórica não por
'conivência', mas por entenderem que o Senado não é um puxadinho de redes
sociais onde se instalam CPMIs com base em 'print' de WhatsApp e ilações de
quem vive de engajamento.
Contudo, o
ponto mais irônico dessa cruzada moralista é o esquecimento seletivo do próprio
protagonista. Enquanto aponta o dedo para resorts e jatinhos alheios, o
deputado silencia sobre o fato de seu próprio nome ter surgido em comunicações
de investigados no mesmo imbróglio que ele agora denuncia. É a máxima da
hipocrisia política: a moralidade é uma arma que só se dispara contra os
adversários. Se o nome do parlamentar aparece em contatos suspeitos, é
'perseguição'; se o nome de um ministro ou de sua família aparece em um
contrato legal, é 'escândalo'. A seletividade é o oxigênio dessa narrativa.




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