segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O TEATRO DO FUNDO PRETO E O VAZIO DE PROVAS

Sangrar' ministros sem provas é apenas golpismo retórico.

Como a estética do escândalo substitui o rigor jurídico na nova narrativa da extrema-direita contra as instituições.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Transformar tensão política em desinformação sistemática é um perigo para a democracia. Quando a política abre mão do fato para abraçar a 'sensação de crime', o que sobra é apenas o barulho. O impeachment de ministros do STF exige fundamentação técnica e prova robusta, elementos que não se fabricam em estúdios de gravação caseiros. Enquanto o deputado busca o 'sangue' dos deuses de toga, o que vemos sangrar, na verdade, é a seriedade do debate público, sacrificada no altar do populismo digital que prefere o like à verdade.

A estética do 'fundo preto' já se tornou um gênero cinematográfico próprio na política brasileira contemporânea. É o cenário ideal para quem não tem provas, mas sobra em performance. Recentemente, um jovem deputado, mestre na arte da indignação algorítmica, ressurgiu para lançar labaredas sobre o Supremo Tribunal Federal e o governo Lula. O roteiro é clássico: conexões difusas, valores vultosos citados sem contexto e a sugestão de que contratos profissionais legítimos são, per se, evidências de um complô satânico. Ao evocar o filme '300' para dizer que 'deuses podem sangrar', o parlamentar não está apenas fazendo uma metáfora infeliz; ele está operando a substituição do devido processo legal pelo linchamento digital.

O cerne das acusações gira em torno do Banco Master, uma instituição que, embora sob holofotes de investigações, parece servir como o 'éter' onde o deputado flutua suas suspeitas. Alega-se que contratos de advocacia da esposa de um ministro ou serviços prestados por um ex-ministro hoje na pasta da Justiça seriam provas de corrupção. Ora, na lógica do parlamentar, exercer a advocacia ou possuir relações contratuais privadas tornou-se um crime de 'proximidade'. É a tese da 'culpa por aproximação', onde não se aponta o ato ilícito específico, mas se desenha uma teia de nomes famosos para que o espectador médio, já devidamente radicalizado, complete o silogismo com o ódio de estimação habitual.

O que o vídeo convenientemente omite é a distinção elementar entre processo e sentença. No mundo real, regido pela Constituição que o deputado jurou defender, suspeita não é condenação. O uso de pedidos de impeachment como ferramenta de marketing para pressionar a presidência do Congresso é uma tese velha travestida de novidade. Presidentes do Congresso são alvos dessa retórica não por 'conivência', mas por entenderem que o Senado não é um puxadinho de redes sociais onde se instalam CPMIs com base em 'print' de WhatsApp e ilações de quem vive de engajamento.

Contudo, o ponto mais irônico dessa cruzada moralista é o esquecimento seletivo do próprio protagonista. Enquanto aponta o dedo para resorts e jatinhos alheios, o deputado silencia sobre o fato de seu próprio nome ter surgido em comunicações de investigados no mesmo imbróglio que ele agora denuncia. É a máxima da hipocrisia política: a moralidade é uma arma que só se dispara contra os adversários. Se o nome do parlamentar aparece em contatos suspeitos, é 'perseguição'; se o nome de um ministro ou de sua família aparece em um contrato legal, é 'escândalo'. A seletividade é o oxigênio dessa narrativa.

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