segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

RELIGIÃO TAMBÉM FAZ CAMPANHA

Instrumentalizar a religião é blindar político sem projeto.
Quando o púlpito vira palanque e a moral se torna um menu à la carte de conveniências eleitorais.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Ao fim e ao cabo, o que resta é a degradação do sagrado em nome do profano desejo de manutenção do poder. A fé, que deveria ser um instrumento de libertação e consolo, termina encarcerada em planilhas eleitorais. Enquanto o debate público for sequestrado por essa moralidade de vitrine, a democracia brasileira continuará a ser testada por aqueles que usam o nome de Deus para assinar decretos de exclusão. Sigamos vigilantes, pois o céu pode até ser de todos, mas o Estado, por direito e necessidade, deve continuar sendo de ninguém em particular.

Não deixa de ser uma ironia refinada que, em um Estado constitucionalmente laico, a agenda pública seja pautada pelo que se decide entre um amém e uma oferta. A instrumentalização da religião na política brasileira, especialmente sob a égide do bolsonarismo, transformou a fé em um verniz estético para esconder projetos de poder que, na prática, ignoram as bem-aventuranças mais básicas. O que assistimos hoje não é um despertar espiritual, mas uma operação de marketing teocrático onde o 'cidadão de bem' é o produto final de uma linha de montagem de ressentimentos e moralismo seletivo.

Essa moralidade, aliás, é de uma elasticidade invejável. É fascinante observar como certos líderes religiosos — e os políticos que os orbitam — demonstram uma indignação febril diante de questões de comportamento privado, como a orientação sexual alheia ou o direito reprodutivo, enquanto mantêm um silêncio sepulcral sobre a fome, o desmatamento ou os esquemas de corrupção que drenam o Tesouro. A bíblia, para essa ala, parece ter sido editada: arrancaram as partes sobre a justiça social e deixaram apenas os versículos que justificam o controle do corpo do outro. É o cristianismo de conveniência, onde o pecado é sempre o do vizinho.

No Maranhão, o cenário não foge à regra do figurino nacional. Vemos lideranças locais em São Luís mimetizando o discurso messiânico para capturar o voto de fatias vulneráveis da população. O púlpito virou extensão do gabinete, e a promessa de salvação agora vem acompanhada de um número de legenda. É uma estratégia astuta: ao santificar a política, eles blindam o político. Afinal, criticar o gestor público passa a ser visto, por uma audiência devidamente manobrada, como um ataque à própria fé. A crítica vira heresia, e a fiscalização do poder vira perseguição religiosa.

A manipulação da opinião pública através do medo moral é o combustível dessa engrenagem. O espantalho da 'destruição da família' é agitado toda vez que um debate sobre desigualdade real ameaça ganhar espaço. É mais fácil discutir o banheiro que as crianças vão usar do que discutir por que tantas delas chegam à escola sem ter tomado café da manhã. A política se esvazia de propostas e se enche de dogmas, criando uma cortina de fumaça perfeita para que o status quo econômico permaneça intocado enquanto os fiéis digladiam por pautas de costumes.

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