terça-feira, 3 de março de 2026

A RAZÃO DO DESCONTENTAMENTO DOS BOLSONARISTAS COM O “MITO”

Entre promessas de campanha e a realidade dos dados, o enfraquecimento das investigações e a paralisia administrativa revelam o custo da falta de rigor institucional.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

A desilusão dos Bolsonaristas com o antigo governo. 

É necessário analisar a gestão pública não pelas declarações de palanque, mas pela saúde de suas instituições e pela eficiência de seus órgãos de controle. O cenário que se desenhou nos últimos anos aponta para uma desconexão profunda entre a retórica anticorrupção e a prática administrativa. Quando observamos que mais de 5.400 inquéritos e processos ficaram em aberto na Polícia Federal sem um desfecho claro, não estamos tratando apenas de burocracia, mas de uma paralisia deliberada ou sistêmica que compromete a aplicação da lei.

O dado mais alarmante reside na queda vertical das operações: o número de prisões despencou em mais de 90% durante a gestão Bolsonaro. Na economia política do crime e do castigo, a redução drástica de investigações, especialmente contra aliados políticos, sugere um aparelhamento que priorizou a blindagem em detrimento da transparência. O enfraquecimento da Polícia Federal e o represamento de investigações estruturais criaram um vácuo de fiscalização que contrasta frontalmente com as promessas que elegeram o governo anterior.

Durante a pandemia, o desafio institucional foi ainda maior. Com a circulação de cerca de 1 trilhão de reais em verbas públicas, a vigilância deveria ter sido redobrada. No entanto, casos como as fraudes no INSS, sobre as quais o Procon-SP emitiu alertas formais já em 2019, foram negligenciados. Houve mais de 16.000 notificações que não resultaram em ações concretas de investigação. Esse silêncio administrativo diante de indícios de malversação de recursos é um indicativo de que o combate à corrupção foi, em muitos momentos, um acessório retórico e não uma prioridade de Estado.

A transição para o cenário atual exige compreensão sobre como o federalismo brasileiro opera na prática. A recente cobrança do governo federal ao estado de Minas Gerais sobre os projetos do PAC ilustra o funcionamento das engrenagens públicas. A destinação de 3,5 bilhões de reais não é um cheque em branco; a liberação do recurso está condicionada à capacidade técnica e administrativa do governo estadual em apresentar documentação e projetos viáveis. Quando o governo federal questiona a ausência desses projetos, ele está operando dentro da lógica da responsabilidade fiscal e execução orçamentária.

A gestão do Estado exige mais do que narrativas; exige fluxos processuais, fiscalização ativa e obediência aos ritos institucionais. O acúmulo de inquéritos parados e a queda nas operações anticorrupção deixam um legado de fragilidade que o sistema democrático leva anos para reparar. Separar o ruído político da eficiência administrativa é o primeiro passo para entender por que, para muitos eleitores, a frustração com as promessas não cumpridas é fundamentada em dados concretos de desmonte.

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