sexta-feira, 20 de março de 2026

POR QUE A EXTREMA-DIREITA CELEBRA O 'NÃO' DE HOLLYWOOD?

A indicação de 'O Agente Secreto' consolida o soft power brasileiro e expõe o paradoxo de um patriotismo que detesta a própria cultura.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

O Oscar não veio, mas o prestígio mundial voltou.
A cerimônia do Oscar no último domingo deixou um gosto agridoce para os cinéfilos, mas serviu de prato cheio para um tipo muito específico de 'torcedor' brasileiro: aquele que encontra no fracasso nacional o seu maior troféu político. Enquanto 'O Agente Secreto' circulava pelos tapetes vermelhos de Los Angeles colhendo o prestígio que o cinema brasileiro não via há décadas, nos esgotos das redes sociais o bolsonarismo ensaiava uma coreografia bizarra de comemoração pela ausência da estatueta. É o ápice do complexo de vira-lata devidamente gourmetizado pelo ódio ideológico.

Para a ala radical da oposição, a derrota de um filme nacional não é uma questão estética ou técnica, mas uma vitória moral contra o que eles chamam jocosamente de 'Lei Rouanet'. O curto-circuito cognitivo é fascinante: em nome de um suposto amor à pátria, celebra-se o fato de o pavilhão nacional não ter subido ao topo do pódio. A arte, para esse grupo, só é válida se for panfletária aos seus próprios valores; caso contrário, é inimiga a ser combatida, mesmo que isso signifique torcer abertamente contra o Brasil no cenário internacional.

O fato ignorado pelos profetas do caos é que o cinema brasileiro vive um biênio de ouro. Estar na disputa pelo segundo ano consecutivo não é um acidente de percurso, mas o resultado de uma reconstrução institucional. 'O Agente Secreto' não precisou do Oscar para provar que o Brasil deixou de ser apenas o exportador de clichês sobre futebol, samba e criminalidade. Hoje, o olhar estrangeiro sobre o país passa pela densidade narrativa e pela capacidade técnica de nossas produções, algo que a diplomacia de gabinete muitas vezes falha em projetar.

Historicamente, o Brasil foi vendido ao mundo sob a ótica da expropriação ou do exotismo. Ver nossa cinematografia ser respeitada pelo intelecto e pela estética é o maior golpe contra a imagem do 'país da corrupção' ou do 'paraíso da prostituição' que tanto agrada a narrativa de quem quer nos ver de joelhos. O prestígio acumulado por Kleber Mendonça Filho e sua equipe é um ativo de Estado, um cartão de visitas que abre portas comerciais e políticas que nenhum discurso inflamado em palanque seria capaz de abrir.

No Maranhão e em todo o Brasil profundo, a lição que fica é a da resiliência cultural. Enquanto os 'patriotas' de fachada se deleitam com a falta de um prêmio de metal, o mundo aplaude a carne e o osso do talento brasileiro. A estatueta pode não ter vindo desta vez, mas a hegemonia da narrativa nacional já atravessou as fronteiras. No fim do dia, o Oscar passa, mas o prestígio de ser novamente uma potência cultural incomoda quem só sabe oferecer o deserto.

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