A indicação de 'O Agente Secreto' consolida o soft power brasileiro e expõe o paradoxo de um patriotismo que detesta a própria cultura.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| O Oscar não veio, mas o prestígio mundial voltou. |
Para a ala
radical da oposição, a derrota de um filme nacional não é uma questão estética
ou técnica, mas uma vitória moral contra o que eles chamam jocosamente de 'Lei
Rouanet'. O curto-circuito cognitivo é fascinante: em nome de um suposto amor à
pátria, celebra-se o fato de o pavilhão nacional não ter subido ao topo do
pódio. A arte, para esse grupo, só é válida se for panfletária aos seus
próprios valores; caso contrário, é inimiga a ser combatida, mesmo que isso
signifique torcer abertamente contra o Brasil no cenário internacional.
O fato
ignorado pelos profetas do caos é que o cinema brasileiro vive um biênio de
ouro. Estar na disputa pelo segundo ano consecutivo não é um acidente de
percurso, mas o resultado de uma reconstrução institucional. 'O Agente Secreto'
não precisou do Oscar para provar que o Brasil deixou de ser apenas o
exportador de clichês sobre futebol, samba e criminalidade. Hoje, o olhar
estrangeiro sobre o país passa pela densidade narrativa e pela capacidade
técnica de nossas produções, algo que a diplomacia de gabinete muitas vezes falha
em projetar.
Historicamente,
o Brasil foi vendido ao mundo sob a ótica da expropriação ou do exotismo. Ver
nossa cinematografia ser respeitada pelo intelecto e pela estética é o maior
golpe contra a imagem do 'país da corrupção' ou do 'paraíso da prostituição'
que tanto agrada a narrativa de quem quer nos ver de joelhos. O prestígio
acumulado por Kleber Mendonça Filho e sua equipe é um ativo de Estado, um
cartão de visitas que abre portas comerciais e políticas que nenhum discurso
inflamado em palanque seria capaz de abrir.
No Maranhão
e em todo o Brasil profundo, a lição que fica é a da resiliência cultural.
Enquanto os 'patriotas' de fachada se deleitam com a falta de um prêmio de
metal, o mundo aplaude a carne e o osso do talento brasileiro. A estatueta pode
não ter vindo desta vez, mas a hegemonia da narrativa nacional já atravessou as
fronteiras. No fim do dia, o Oscar passa, mas o prestígio de ser novamente uma
potência cultural incomoda quem só sabe oferecer o deserto.




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