Enquanto o empresariado chora por margens de lucro, milhões de brasileiros perdem a saúde e a dignidade em escalas exaustivas que negam o direito básico ao descanso.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| O lucro nunca deve valer mais do que uma vida humana. |
A mobilização nacional em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da escala 6x1 não é apenas um debate sobre horas trabalhadas, mas um grito de socorro de uma classe trabalhadora exausta. O movimento Vida Além do Trabalho (VAT), impulsionado por Rick Azevedo e levado ao Congresso pela deputada Erika Hilton, escancarou uma realidade que a elite política e econômica prefere ignorar: a atual jornada de trabalho no Brasil é um moedor de gente que sacrifica a saúde mental e os laços familiares em nome de uma produtividade que não se reverte em bem-estar social.
É
estarrecedor observar a resistência feroz de setores do empresariado e de
parlamentares de direita que, protegidos por seus fins de semana livres e
recessos generosos, rotulam a redução da jornada como uma 'ameaça à economia'.
O discurso é o mesmo de séculos passados: a ideia de que garantir direitos
básicos quebrará o país. Na verdade, o que quebra o país é o adoecimento em
massa por burnout, a depressão e a precarização que empurra o trabalhador para
um ciclo infinito de cansaço e consumo básico, sem tempo sequer para exercer
sua cidadania ou desfrutar do lazer.
Estudos
internacionais e experiências em países que adotaram a jornada reduzida mostram
que a qualidade de vida aumenta e, surpreendentemente para os tecnocratas, a
produtividade acompanha esse crescimento. No Brasil, a escala 6x1 é o último
reduto de uma mentalidade escravocrata que enxerga o empregado como uma
ferramenta descartável e não como um ser humano dotado de direitos e
necessidades. A manutenção dessa escala serve apenas para manter uma massa de
manobra cansada demais para questionar as injustiças do sistema.
A pressão popular nas redes sociais e nas ruas foi o que garantiu as assinaturas necessárias para que a PEC começasse a tramitar, mas o jogo em Brasília é bruto. O lobby do grande capital já se movimenta nos corredores da Câmara para desidratar a proposta ou engavetá-la sob a desculpa do 'custo Brasil'. É preciso dar nome aos bois: quem vota contra o fim da 6x1 vota pelo direito de explorar até a última gota de suor de quem ganha um salário mínimo para sustentar o luxo de poucos.
Não aceitaremos migalhas. A redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, sem redução salarial, é uma reparação histórica e uma necessidade biológica. O progresso tecnológico deve servir para libertar o ser humano, não para acorrentá-lo ainda mais a balcões de lojas e caixas de supermercado sob sol e chuva, seis dias por semana. A luta pelo fim da escala 6x1 é a luta pela reconquista do tempo, que é, em última instância, o nosso bem mais precioso.




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