domingo, 8 de março de 2026

08 DE MARÇO E A LUTA POR ESPAÇO REAL: ALÉM DAS FLORES E DO DISCURSO

Análise sobre os avanços e os gargalos da representatividade feminina na política ludovicense e nacional.

Por: Emerson Marinho
Bacharel em Comunicação e Colunista

Lugar de mulher é onde ela quiser,
inclusive decidindo o orçamento.

O Dia Internacional da Mulher chega com o tradicional tom de celebração, mas a política brasileira exige uma análise que vai muito além das homenagens protocolares. No Maranhão e em todo o país, o 8 de março serve como um termômetro para medir o abismo entre o que a lei garante e o que a prática permite. O Brasil ocupa posições tímidas em rankings de representatividade feminina, revelando que a nossa democracia ainda caminha a passos lentos para incluir, de fato, metade da nossa população nas esferas de decisão.

A evolução legislativa é um fato inegável que merece destaque positivo na nossa história recente. Leis como a Maria da Penha e a Lei do Feminicídio mudaram o patamar de proteção jurídica, tirando a violência doméstica da invisibilidade e tornando-a uma questão de Estado. No campo eleitoral, a obrigatoriedade de cotas e a reserva de recursos do fundo partidário para candidaturas femininas representam vitórias institucionais que tentam equilibrar um jogo historicamente desigual e viciado.

Contudo, a realidade nas câmaras municipais e assembleias legislativas expõe uma sub-representação crônica que as leis sozinhas não resolvem. Em São Luís, por exemplo, o número de vereadoras eleitas ainda é desproporcional à força do eleitorado feminino, que é maioria absoluta. Esse cenário mostra que a barreira para a entrada da mulher na política não é apenas jurídica, mas cultural e estrutural, enraizada em partidos que ainda funcionam como clubes fechados.

A prática das candidaturas laranjas é a prova mais vergonhosa dessa resistência masculina ao compartilhamento do poder. Muitas legendas utilizam nomes de mulheres apenas para cumprir a burocracia das cotas, sem oferecer suporte financeiro real ou tempo de TV, sabotando o potencial de novas lideranças. Felizmente, a Justiça Eleitoral endurece o cerco contra essas fraudes, cassando chapas inteiras e enviando um recado claro de que a lei não aceita mais simulações.

As instituições possuem um papel fundamental na manutenção dessas garantias, mas precisam atuar com mais vigor na fiscalização do cotidiano partidário. Não basta garantir o registro da candidatura; é preciso assegurar que a mulher tenha condições de competir em igualdade com as estruturas tradicionais. A desigualdade na distribuição de tarefas domésticas e o cuidado com a família também pesam, funcionando como um freio invisível que afasta excelentes quadros femininos da vida pública.

Outro desafio moderno que ganha contornos dramáticos é a violência política de gênero nas redes sociais. Candidatas e mandatárias sofrem ataques coordenados que visam desqualificar sua competência técnica através de ofensas pessoais e sexistas. Esse fenômeno cria um ambiente hostil que intimida novas mulheres a ingressarem na política, transformando o espaço de debate em um campo de guerra focado no gênero e não nas propostas para a cidade.

A presença feminina na política altera a qualidade das políticas públicas, pois traz para o orçamento temas que os homens frequentemente ignoram. Quando uma mulher ocupa um espaço de poder em São Luís, as pautas de creches, saúde materno-infantil e segurança pública ganham uma perspectiva de vivência prática. A representatividade não é uma questão de estética democrática, é uma necessidade funcional para que a gestão pública atenda às demandas reais de quem move a economia.

A solução para romper com essas estruturas arcaicas passa por uma reforma interna profunda nos partidos políticos, que devem funcionar como incubadoras de lideranças femininas o ano todo, e não apenas nas vésperas das convenções. Precisamos cobrar transparência na distribuição dos recursos e apoiar mecanismos que garantam a permanência dessas mulheres nos cargos, protegendo-as de perseguições. O avanço real acontecerá quando pararmos de tratar a mulher na política como uma cota a ser preenchida e passarmos a vê-la como a protagonista que ela já é na sociedade.

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