Análise sobre os avanços e os gargalos da representatividade feminina na política ludovicense e nacional.
Por: Emerson Marinho
Bacharel em Comunicação e Colunista
Lugar de mulher é onde ela quiser,
inclusive
decidindo o orçamento.
O Dia
Internacional da Mulher chega com o tradicional tom de celebração, mas a
política brasileira exige uma análise que vai muito além das homenagens protocolares.
No Maranhão e em todo o país, o 8 de março serve como um termômetro para medir
o abismo entre o que a lei garante e o que a prática permite. O Brasil ocupa
posições tímidas em rankings de representatividade feminina, revelando que a
nossa democracia ainda caminha a passos lentos para incluir, de fato, metade da
nossa população nas esferas de decisão.
A evolução
legislativa é um fato inegável que merece destaque positivo na nossa história
recente. Leis como a Maria da Penha e a Lei do Feminicídio mudaram o patamar de
proteção jurídica, tirando a violência doméstica da invisibilidade e tornando-a
uma questão de Estado. No campo eleitoral, a obrigatoriedade de cotas e a
reserva de recursos do fundo partidário para candidaturas femininas representam
vitórias institucionais que tentam equilibrar um jogo historicamente desigual e
viciado.
Contudo, a
realidade nas câmaras municipais e assembleias legislativas expõe uma
sub-representação crônica que as leis sozinhas não resolvem. Em São Luís, por
exemplo, o número de vereadoras eleitas ainda é desproporcional à força do
eleitorado feminino, que é maioria absoluta. Esse cenário mostra que a barreira
para a entrada da mulher na política não é apenas jurídica, mas cultural e
estrutural, enraizada em partidos que ainda funcionam como clubes fechados.
A prática
das candidaturas laranjas é a prova mais vergonhosa dessa resistência masculina
ao compartilhamento do poder. Muitas legendas utilizam nomes de mulheres apenas
para cumprir a burocracia das cotas, sem oferecer suporte financeiro real ou
tempo de TV, sabotando o potencial de novas lideranças. Felizmente, a Justiça
Eleitoral endurece o cerco contra essas fraudes, cassando chapas inteiras e
enviando um recado claro de que a lei não aceita mais simulações.
As
instituições possuem um papel fundamental na manutenção dessas garantias, mas
precisam atuar com mais vigor na fiscalização do cotidiano partidário. Não
basta garantir o registro da candidatura; é preciso assegurar que a mulher
tenha condições de competir em igualdade com as estruturas tradicionais. A
desigualdade na distribuição de tarefas domésticas e o cuidado com a família
também pesam, funcionando como um freio invisível que afasta excelentes quadros
femininos da vida pública.
Outro
desafio moderno que ganha contornos dramáticos é a violência política de gênero
nas redes sociais. Candidatas e mandatárias sofrem ataques coordenados que
visam desqualificar sua competência técnica através de ofensas pessoais e
sexistas. Esse fenômeno cria um ambiente hostil que intimida novas mulheres a
ingressarem na política, transformando o espaço de debate em um campo de guerra
focado no gênero e não nas propostas para a cidade.
A presença
feminina na política altera a qualidade das políticas públicas, pois traz para o
orçamento temas que os homens frequentemente ignoram. Quando uma mulher ocupa
um espaço de poder em São Luís, as pautas de creches, saúde materno-infantil e
segurança pública ganham uma perspectiva de vivência prática. A
representatividade não é uma questão de estética democrática, é uma necessidade
funcional para que a gestão pública atenda às demandas reais de quem move a
economia.
A solução
para romper com essas estruturas arcaicas passa por uma reforma interna
profunda nos partidos políticos, que devem funcionar como incubadoras de
lideranças femininas o ano todo, e não apenas nas vésperas das convenções.
Precisamos cobrar transparência na distribuição dos recursos e apoiar
mecanismos que garantam a permanência dessas mulheres nos cargos, protegendo-as
de perseguições. O avanço real acontecerá quando pararmos de tratar a mulher na
política como uma cota a ser preenchida e passarmos a vê-la como a protagonista
que ela já é na sociedade.




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