Entre o asfalto eleitoral e a hipocrisia do púlpito, São Luís assiste a um teatro de sombras onde o cidadão é apenas figurante.
Por: Altair Inácio
São Luís, a
nossa Ilha do Amor, sempre foi um cenário onde o Barroco não se limita às
fachadas dos casarões coloniais; ele transborda para a política, com suas
curvas dramáticas e sombras densas. O jogo de poder na capital maranhense nunca
foi para amadores, mas ultimamente, a estética da eficiência administrativa tem
servido apenas como maquiagem para velhas práticas que insistem em não morrer.
A política local respira uma mistura de provincianismo aristocrático com um
marketing digital agressivo, criando uma realidade paralela para o eleitorado.A Ilha clama por justiça real, não por filtro de
Instagram.
Eduardo
Braide, com seu figurino de gestor técnico e olhar milimetricamente calculado,
tenta vender uma cidade que funciona sob a batuta de uma organização impecável.
No entanto, basta um passeio para além das avenidas recapeadas no período
eleitoral para perceber que o asfalto não apaga as desigualdades históricas. A
gestão municipal opera em uma redoma de vidro, comunicando-se por meio de
vídeos bem editados enquanto os problemas estruturais nos bairros periféricos
permanecem em compasso de espera, evidenciando que a prioridade é a vitrine,
não o estoque.
É fascinante
— e preocupante — observar como o bolsonarismo, mesmo após a derrota nacional,
encontrou nas terras ludovicenses um terreno fértil para fincar suas bandeiras
morais. A política de São Luís está sendo sequestrada por um discurso de ódio
travestido de defesa da família, onde o debate público é substituído por pautas
de costumes que pouco acrescentam ao prato de comida do trabalhador do
Coroadinho ou da Ilhinha. Essa guinada à direita não é orgânica, mas sim uma
construção de algoritmos e conveniências políticas que ignoram a essência
plural da nossa cultura.
E por falar
em valores, não podemos ignorar a instrumentalização da fé. O púlpito virou
palanque de forma explícita e despudorada. Candidatos e parlamentares circulam
pelas igrejas não em busca de redenção, mas de currais eleitorais, vendendo uma
santidade de ocasião que se desmancha na primeira votação de interesse privado
na Câmara Municipal. A moral seletiva dessa ala conservadora é o combustível
para um projeto de poder que exclui a diversidade e marginaliza o pensamento progressista
em nome de um messianismo de conveniência.
O duelo entre o Palácio de La Ravardière e o Palácio dos Leões é a eterna coreografia maranhense. Carlos Brandão e Eduardo Braide jogam um xadrez onde as peças são o orçamento público e o destino da população. Enquanto as elites se digladiam por espaços de influência e verbas federais, a cidade assiste a uma precarização silenciosa de seus serviços fundamentais. Resta saber se o eleitor ludovicense continuará satisfeito com as migalhas de um marketing digital eficiente ou se buscará uma política que, de fato, honre a história de resistência e cultura desta ilha.




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