quarta-feira, 4 de março de 2026

A FÉ VIROU MOEDA DE TROCA NA POLÍTICA LUDOVICENSE

Entre o asfalto eleitoral e a hipocrisia do púlpito, São Luís assiste a um teatro de sombras onde o cidadão é apenas figurante.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

A Ilha clama por justiça real, não por filtro de Instagram.
São Luís, a nossa Ilha do Amor, sempre foi um cenário onde o Barroco não se limita às fachadas dos casarões coloniais; ele transborda para a política, com suas curvas dramáticas e sombras densas. O jogo de poder na capital maranhense nunca foi para amadores, mas ultimamente, a estética da eficiência administrativa tem servido apenas como maquiagem para velhas práticas que insistem em não morrer. A política local respira uma mistura de provincianismo aristocrático com um marketing digital agressivo, criando uma realidade paralela para o eleitorado.

Eduardo Braide, com seu figurino de gestor técnico e olhar milimetricamente calculado, tenta vender uma cidade que funciona sob a batuta de uma organização impecável. No entanto, basta um passeio para além das avenidas recapeadas no período eleitoral para perceber que o asfalto não apaga as desigualdades históricas. A gestão municipal opera em uma redoma de vidro, comunicando-se por meio de vídeos bem editados enquanto os problemas estruturais nos bairros periféricos permanecem em compasso de espera, evidenciando que a prioridade é a vitrine, não o estoque.

É fascinante — e preocupante — observar como o bolsonarismo, mesmo após a derrota nacional, encontrou nas terras ludovicenses um terreno fértil para fincar suas bandeiras morais. A política de São Luís está sendo sequestrada por um discurso de ódio travestido de defesa da família, onde o debate público é substituído por pautas de costumes que pouco acrescentam ao prato de comida do trabalhador do Coroadinho ou da Ilhinha. Essa guinada à direita não é orgânica, mas sim uma construção de algoritmos e conveniências políticas que ignoram a essência plural da nossa cultura.

E por falar em valores, não podemos ignorar a instrumentalização da fé. O púlpito virou palanque de forma explícita e despudorada. Candidatos e parlamentares circulam pelas igrejas não em busca de redenção, mas de currais eleitorais, vendendo uma santidade de ocasião que se desmancha na primeira votação de interesse privado na Câmara Municipal. A moral seletiva dessa ala conservadora é o combustível para um projeto de poder que exclui a diversidade e marginaliza o pensamento progressista em nome de um messianismo de conveniência.

O duelo entre o Palácio de La Ravardière e o Palácio dos Leões é a eterna coreografia maranhense. Carlos Brandão e Eduardo Braide jogam um xadrez onde as peças são o orçamento público e o destino da população. Enquanto as elites se digladiam por espaços de influência e verbas federais, a cidade assiste a uma precarização silenciosa de seus serviços fundamentais. Resta saber se o eleitor ludovicense continuará satisfeito com as migalhas de um marketing digital eficiente ou se buscará uma política que, de fato, honre a história de resistência e cultura desta ilha.

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site