segunda-feira, 23 de março de 2026

O MARANHÃO SOB O DOMÍNIO DO CRIME DE GRILAGEM

Entre o avanço predatório do agronegócio e a omissão estatal, comunidades tradicionais lutam para não serem apagadas do mapa.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política

O agronegócio avança, mas o rastro que deixa
é de sangue e expulsão.
O estado do Maranhão consolidou-se, infelizmente, como um dos cenários mais violentos da luta pela terra no Brasil. O avanço da fronteira agrícola na região do Matopiba (região formada pelo estado do Tocantins e partes dos estados do Maranhão, Piauí e Bahia) não traz apenas soja e dólares; traz consigo um rastro de destruição ambiental e desespero para milhares de famílias quilombolas, indígenas e de quebradeiras de coco babaçu. O que assistimos não é um progresso inevitável, mas um projeto deliberado de expulsão e apagamento de quem cuida da terra há gerações.

A grilagem contemporânea no Maranhão opera com uma sofisticação perversa. Não se trata apenas de cercas derrubadas no meio da noite, mas de uma engenharia jurídica que fabrica títulos de propriedade sobrepostos a territórios tradicionalmente ocupados. Sob o olhar complacente — ou até cúmplice — de cartórios e órgãos de fiscalização, o patrimônio público é fatiado e entregue a grandes conglomerados, transformando o direito à moradia e ao trabalho em mercadoria de exportação.

Os números da Comissão Pastoral da Terra (CPT) são um grito de socorro que o poder público insiste em ignorar. Ano após ano, o Maranhão figura entre os líderes dos rankings de assassinatos, tentativas de homicídio e ameaças de morte no campo. Lideranças que se levantam contra o cerco dos fazendeiros e das milícias privadas são marcadas para morrer, enquanto as investigações caminham a passos de tartaruga, garantindo a impunidade que alimenta o próximo disparo.

É preciso dizer com todas as letras: não há democracia plena enquanto o acesso à terra for um privilégio mediado pela violência. O agronegócio que se pretende moderno não pode conviver com práticas feudais de extermínio. Quando o Estado falha em regularizar os territórios quilombolas e indígenas, ele assina embaixo da sentença de morte dessas comunidades. A omissão é, na verdade, uma escolha política de quem prefere o lucro de poucos ao sustento de muitos.

Justiça social no Maranhão exige mais do que discursos de gabinete; exige a retomada urgente da reforma agrária e a proteção real das vidas que sustentam a biodiversidade do cerrado e da transição para a Amazônia. Enquanto a caneta de quem decide continuar servindo aos interesses do latifúndio, a terra continuará sendo adubada com o sangue daqueles que apenas pedem o direito de existir. 

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