Entre o avanço predatório do agronegócio e a omissão estatal, comunidades tradicionais lutam para não serem apagadas do mapa.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| O agronegócio avança, mas o rastro que deixa é de sangue e expulsão. |
A grilagem
contemporânea no Maranhão opera com uma sofisticação perversa. Não se trata
apenas de cercas derrubadas no meio da noite, mas de uma engenharia jurídica
que fabrica títulos de propriedade sobrepostos a territórios tradicionalmente
ocupados. Sob o olhar complacente — ou até cúmplice — de cartórios e órgãos de
fiscalização, o patrimônio público é fatiado e entregue a grandes
conglomerados, transformando o direito à moradia e ao trabalho em mercadoria de
exportação.
Os números
da Comissão Pastoral da Terra (CPT) são um grito de socorro que o poder público
insiste em ignorar. Ano após ano, o Maranhão figura entre os líderes dos
rankings de assassinatos, tentativas de homicídio e ameaças de morte no campo.
Lideranças que se levantam contra o cerco dos fazendeiros e das milícias
privadas são marcadas para morrer, enquanto as investigações caminham a passos
de tartaruga, garantindo a impunidade que alimenta o próximo disparo.
É preciso dizer com todas as letras: não há democracia plena enquanto o acesso à terra for um privilégio mediado pela violência. O agronegócio que se pretende moderno não pode conviver com práticas feudais de extermínio. Quando o Estado falha em regularizar os territórios quilombolas e indígenas, ele assina embaixo da sentença de morte dessas comunidades. A omissão é, na verdade, uma escolha política de quem prefere o lucro de poucos ao sustento de muitos.
Justiça social no Maranhão exige mais do que discursos de gabinete; exige a retomada urgente da reforma agrária e a proteção real das vidas que sustentam a biodiversidade do cerrado e da transição para a Amazônia. Enquanto a caneta de quem decide continuar servindo aos interesses do latifúndio, a terra continuará sendo adubada com o sangue daqueles que apenas pedem o direito de existir.




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