segunda-feira, 2 de março de 2026

A REALIDADE SOBRE A TRIBUTAÇAO DE ELETRÔNICOS PELO GOVERNO

Entenda o desenho real das alíquotas de importação e como a narrativa política distorce a política industrial brasileira.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

Fato: 95% dos celulares são feitos no Brasil.
Recentemente, uma onda de desinformação tomou as redes sociais sobre a tributação de eletrônicos, capitaneada por figuras como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Para entender o impacto real, é preciso observar a estrutura da produção nacional. Atualmente, 95% dos smartphones vendidos no Brasil são fabricados em território nacional. O imposto em questão não incide sobre os componentes eletrônicos importados que alimentam as linhas de montagem brasileiras, mas sim sobre aparelhos que já chegam prontos para o consumo final. Portanto, a tese de uma explosão generalizada de preços por via tributária ignora o funcionamento básico da nossa cadeia produtiva.

As declarações de Flávio Bolsonaro, que mostrou desconhecimento sobre a fabricação nacional de smartphones, demonstram um distanciamento preocupante da realidade industrial do país. Historicamente, o senador demonstra maior familiaridade com outros setores, como o imobiliário e o de comércio de chocolates, áreas em que o Ministério Público apontou movimentações atípicas de R$ 2,3 milhões sob suspeita de lavagem de dinheiro. Além disso, notícias sobre sua frequente troca de aparelhos celulares sugerem que seu interesse pelo tema é mais pessoal e político do que técnico ou institucional, desconsiderando o impacto positivo da proteção à indústria local.

No que tange aos componentes de informática, as alegações do deputado Nikolas Ferreira sobre o aumento de impostos para placas de vídeo e processadores carecem de base factual. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) opera sob a lógica da similaridade nacional: itens como processadores, memória RAM e placas-mãe, que não possuem produção interna equivalente, têm autorização para manter alíquotas zeradas. O governo não tributa o que o país não é capaz de produzir, justamente para não asfixiar o setor de tecnologia e inovação.

É fundamental o esclarecimento técnico sobre as placas de vídeo. A alteração tributária recente não atinge o hardware voltado ao público gamer ou ao uso doméstico convencional. A medida foca especificamente em placas com dez ou mais saídas de vídeo, equipamentos altamente especializados utilizados quase exclusivamente em circuitos fechados de monitoramento e segurança. Confundir esses nichos industriais com o mercado de consumo de massa é uma estratégia de comunicação que visa apenas gerar pânico e engajamento digital, sem qualquer compromisso com a verdade orçamentária.

A prática de utilizar notícias falsas para manchar a imagem do governo e estimular a polarização é um mecanismo recorrente de grupos que buscam desestabilizar o debate institucional. Ao simplificar temas complexos da economia política para criar vilões imaginários, esses agentes impedem que o cidadão compreenda as engrenagens reais do Estado e da regulação tributária. O combate à desinformação exige análise fria dos decretos e das tabelas de alíquotas, separando o ruído político da realidade administrativa.

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