A aprovação do PL 896/2023 no Senado expõe a fragilidade de uma ala política que confunde liberdade de expressão com o salvo-conduto para a agressão de gênero.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| Damares proteger o 'direito de agredir' dos aliados no texto. |
Como era de
se esperar, o grito dos que se dizem "perseguidos" não tardou a ecoar
pelos corredores do Congresso. É fascinante observar como a extrema direita,
tão célere em pedir punições draconianas para crimes comuns, subitamente
descobre uma sensibilidade acadêmica quase lírica pela "liberdade de
expressão" quando o alvo da lei é o seu próprio comportamento. O argumento
de que criminalizar o desprezo e a aversão às mulheres coloca em risco a
"voz conservadora" é, na verdade, uma confissão involuntária:
admite-se, sem qualquer pudor, que o conservadorismo dessa ala está
umbilicalmente ligado à manutenção da hierarquia de gênero pela via da
violência verbal.
A senadora
Damares Alves, mestre na arte de caminhar sobre o fio da navalha entre a fé e o
palanque, trouxe sua habitual dose de contorcionismo retórico ao debate.
Preocupada com os "riscos" para os políticos homens, Damares tenta
equilibrar sua imagem de defensora das mulheres com a necessidade pragmática de
não isolar seus aliados mais ruidosos. Ao gastar tempo nas redes sociais
negando que a lei proibirá um "bom dia", ela utiliza o espantalho da
desinformação para suavizar o debate, ignorando que a lei foca na estrutura de
ódio e não na etiqueta social. É o velho jogo de reduzir o estrutural ao
anedótico para esvaziar a importância da norma.
Já na Câmara dos Deputados, o cenário ganha contornos de espetáculo histriônico com a liderança de Nikolas Ferreira. Classificar a criminalização da misoginia como uma "aberração" revela muito mais sobre quem critica do que sobre o texto legal aprovado pelos senadores. Para quem construiu sua carreira digital explorando as brechas da polêmica vazia e do ataque personalista, o fim da impunidade para o ódio de gênero soa, de fato, como uma sentença de morte política. O pânico diante da possibilidade de inelegibilidade é o verdadeiro motor dessa "cruzada pela liberdade", escondendo o medo real de que a política deixe de ser o playground onde o machismo se disfarça de bravata.




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