sexta-feira, 27 de março de 2026

A MISOGINIA NO BANCO DOS RÉUS E O MEDO DE QUEM VIVE DO ÓDIO

A aprovação do PL 896/2023 no Senado expõe a fragilidade de uma ala política que confunde liberdade de expressão com o salvo-conduto para a agressão de gênero.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Damares proteger o 'direito de agredir' dos aliados no texto.

Brasília, a cidade dos mármores frios e das paixões ardentes, assistiu a um raro momento de lucidez civilizatória no Senado Federal. A aprovação do PL 896/2023 não é apenas uma vitória jurídica; é um ajuste de contas necessário com a história brasileira, que por séculos tratou o desprezo sistemático às mulheres como um traço cultural inofensivo ou, pior, como um "estilo" de retórica política. Ao equiparar a misoginia ao racismo — tornando-a inafiançável e imprescritível —, o Estado brasileiro finalmente retira o ódio do campo do "mal-entendido" e o coloca onde ele sempre deveria estar: no rigor do Código Penal.
O embate que se aproxima na Câmara será o termômetro definitivo da nossa maturidade democrática. Não se trata de silenciar vozes dissidentes, mas de estabelecer o limite ético onde termina o debate de ideias e começa o extermínio simbólico da dignidade feminina. Enquanto a oposição promete barricadas contra o que chama de "censura", a sociedade civil observa atentamente: quem, em sã consciência, tem medo de uma lei que proíbe o ódio às mulheres? A resposta a essa pergunta simples diz tudo o que precisamos saber sobre as reais intenções de quem se senta nas cadeiras de veludo do poder.

Como era de se esperar, o grito dos que se dizem "perseguidos" não tardou a ecoar pelos corredores do Congresso. É fascinante observar como a extrema direita, tão célere em pedir punições draconianas para crimes comuns, subitamente descobre uma sensibilidade acadêmica quase lírica pela "liberdade de expressão" quando o alvo da lei é o seu próprio comportamento. O argumento de que criminalizar o desprezo e a aversão às mulheres coloca em risco a "voz conservadora" é, na verdade, uma confissão involuntária: admite-se, sem qualquer pudor, que o conservadorismo dessa ala está umbilicalmente ligado à manutenção da hierarquia de gênero pela via da violência verbal.

A senadora Damares Alves, mestre na arte de caminhar sobre o fio da navalha entre a fé e o palanque, trouxe sua habitual dose de contorcionismo retórico ao debate. Preocupada com os "riscos" para os políticos homens, Damares tenta equilibrar sua imagem de defensora das mulheres com a necessidade pragmática de não isolar seus aliados mais ruidosos. Ao gastar tempo nas redes sociais negando que a lei proibirá um "bom dia", ela utiliza o espantalho da desinformação para suavizar o debate, ignorando que a lei foca na estrutura de ódio e não na etiqueta social. É o velho jogo de reduzir o estrutural ao anedótico para esvaziar a importância da norma.

Já na Câmara dos Deputados, o cenário ganha contornos de espetáculo histriônico com a liderança de Nikolas Ferreira. Classificar a criminalização da misoginia como uma "aberração" revela muito mais sobre quem critica do que sobre o texto legal aprovado pelos senadores. Para quem construiu sua carreira digital explorando as brechas da polêmica vazia e do ataque personalista, o fim da impunidade para o ódio de gênero soa, de fato, como uma sentença de morte política. O pânico diante da possibilidade de inelegibilidade é o verdadeiro motor dessa "cruzada pela liberdade", escondendo o medo real de que a política deixe de ser o playground onde o machismo se disfarça de bravata.


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