Enquanto o governo celebra quedas percentuais, o aumento nas denúncias e o abandono das mulheres negras no interior revelam uma rede de proteção que ainda falha em salvar o essencial.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| Redução de feminicídio no papel não apaga o aumento de 39% nas denúncias. |
A conta não
fecha porque a proteção é um privilégio geográfico. Enquanto a capital e
grandes centros como Imperatriz concentram recursos e patrulhas, o interior do
Maranhão é um deserto de assistência. Delegacias Especializadas da Mulher são
artigos de luxo em municípios menores, onde o machismo estrutural dita as
regras e a polícia, muitas vezes, é a mesma que desestimula a denúncia sob o
manto da 'conciliação familiar'. Uma medida protetiva sem fiscalização rigorosa
não passa de um pedaço de papel que o agressor ignora com a certeza da
impunidade.
É impossível
ignorar o recorte de raça e classe que mancha esses boletins de ocorrência. A
imensa maioria das vítimas são mulheres negras, periféricas e quilombolas. Para
essas brasileiras, a 'rede de proteção' é uma ficção distante. A falta de
monitoramento eletrônico para agressores e a escassez de casas de acolhimento
fazem com que a mulher tenha que escolher entre o risco de morrer em casa ou o
desamparo absoluto na rua. O Estado celebra a vida de 18 mulheres que 'deixaram
de morrer', mas silencia sobre as milhares que vivem sob o terror psicológico e
físico diário.
A
ineficiência da rede não é apenas falta de verba; é uma escolha política de
prioridades. Quando o orçamento para propaganda institucional supera o
investimento real em centros de referência, a mensagem é clara: a imagem do
governo importa mais que a integridade das cidadãs. Não basta reestruturar o
Ligue 180 se, na outra ponta da linha, a viatura não chega ou o juiz demora a
despachar. A justiça que tarda, no caso da violência doméstica, é a mesma que
enterra.
Precisamos
de uma política pública que não seja feita para apresentações de PowerPoint em
Brasília ou São Luís. O Maranhão precisa encarar que o feminicídio é o desfecho
de uma sucessão de falhas estatais: na educação, na segurança e na assistência
social. Enquanto a redução de 27% nos casos for usada para aplacar críticas em
vez de impulsionar reformas estruturais, continuaremos contando corpos e
chamando isso de estatística.




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