segunda-feira, 16 de março de 2026

AS MARANHENSES ESTÃO GRITANDO POR SOCORRO!

Enquanto o governo celebra quedas percentuais, o aumento nas denúncias e o abandono das mulheres negras no interior revelam uma rede de proteção que ainda falha em salvar o essencial.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política

Redução de feminicídio no papel não apaga
o aumento de 39% nas denúncias.
O governo do Maranhão tem se apressado em divulgar a queda nos índices de feminicídio como um troféu de gestão. Os dados de 2025, que apontam uma redução para 51 casos, são vendidos como prova de eficiência. Mas, para uma jornalista que pisa no chão da realidade social, esses números são perigosos. Eles camuflam um dado alarmante: o aumento de quase 39% nas denúncias ao Ligue 180. O que as autoridades chamam de 'sucesso' é, na verdade, um grito desesperado de mulheres que estão sendo agredidas em níveis recordes, mas que a rede de proteção estatal não consegue acolher antes que o pior aconteça.

A conta não fecha porque a proteção é um privilégio geográfico. Enquanto a capital e grandes centros como Imperatriz concentram recursos e patrulhas, o interior do Maranhão é um deserto de assistência. Delegacias Especializadas da Mulher são artigos de luxo em municípios menores, onde o machismo estrutural dita as regras e a polícia, muitas vezes, é a mesma que desestimula a denúncia sob o manto da 'conciliação familiar'. Uma medida protetiva sem fiscalização rigorosa não passa de um pedaço de papel que o agressor ignora com a certeza da impunidade.

É impossível ignorar o recorte de raça e classe que mancha esses boletins de ocorrência. A imensa maioria das vítimas são mulheres negras, periféricas e quilombolas. Para essas brasileiras, a 'rede de proteção' é uma ficção distante. A falta de monitoramento eletrônico para agressores e a escassez de casas de acolhimento fazem com que a mulher tenha que escolher entre o risco de morrer em casa ou o desamparo absoluto na rua. O Estado celebra a vida de 18 mulheres que 'deixaram de morrer', mas silencia sobre as milhares que vivem sob o terror psicológico e físico diário.

A ineficiência da rede não é apenas falta de verba; é uma escolha política de prioridades. Quando o orçamento para propaganda institucional supera o investimento real em centros de referência, a mensagem é clara: a imagem do governo importa mais que a integridade das cidadãs. Não basta reestruturar o Ligue 180 se, na outra ponta da linha, a viatura não chega ou o juiz demora a despachar. A justiça que tarda, no caso da violência doméstica, é a mesma que enterra.

Precisamos de uma política pública que não seja feita para apresentações de PowerPoint em Brasília ou São Luís. O Maranhão precisa encarar que o feminicídio é o desfecho de uma sucessão de falhas estatais: na educação, na segurança e na assistência social. Enquanto a redução de 27% nos casos for usada para aplacar críticas em vez de impulsionar reformas estruturais, continuaremos contando corpos e chamando isso de estatística. 

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