O abismo editorial entre o 'presidiário comum' de 2019 e o 'preso especial' de 2025.
Por:
Emerson Marinho
Bacharel em Comunicação e Colunista
| Lula vs Bolsonaro na visão do Estadão. |
Em 2019, o
alvo era Lula. Naquela época, o editorial foi implacável ao criticar o pedido
do petista para ir ao velório do irmão. O texto pregava que Lula deveria ser
tratado como um 'presidiário comum'. Para o jornal, qualquer flexibilização era
vista como um 'mimo' ou 'privilégio inédito'. O discurso da igualdade perante a
lei era a bandeira máxima para manter o líder do PT em uma cela na PF.
O jogo virou
em 2025 com a condenação de Jair Bolsonaro. Agora, após a sentença de 27 anos
por tentativa de golpe, o tom mudou radicalmente. O mesmo jornal que pedia
rigor total agora defende que Bolsonaro 'não é um preso qualquer'. A tese é de
que o cargo ocupado e a saúde debilitada justificariam a prisão domiciliar,
evitando o que chamam de 'imprudência' institucional.
Nas redes
sociais, o print é eterno. A comparação entre as manchetes 'Privilégios na
prisão' e 'Bolsonaro merece tratamento especial' dominou os trending topics. O
eleitor comum, que consome política pelo WhatsApp e pelo TikTok, percebeu a
manobra narrativa. A crítica não é apenas jurídica, é sobre a coerência de um
dos maiores veículos de comunicação do país. O discurso de que o sistema
protege 'os seus' ganha força nas feiras e nos grupos de família. Quando a
imprensa muda a régua conforme o réu, ela entrega munição pesada para quem
deseja descredibilizar as instituições.
Essa mudança
de postura revela uma crise de narrativa profunda. Em 2019, a 'isonomia' servia
para punir; em 2025, a 'especificidade do cargo' serve para proteger. Para o
cidadão que encara a fila do hospital ou o transporte lotado, essa diferença de
tratamento soa como um deboche. A política, no fim das contas, é percebida como
um jogo de cartas marcadas por quem detém a caneta.
O impacto para o Estadão é o desgaste da sua principal moeda: a credibilidade, se é que um dia já teve. Ao tentar suavizar a situação de Bolsonaro alegando 'magnanimidade', o jornal ignorou que o público de hoje faz a checagem em segundos. A disputa de versões está nas ruas e, desta vez, a explicação técnica não convence quem viu o rigor ser aplicado de forma seletiva no passado recente.
No tabuleiro do poder, a coerência é artigo de luxo, mas a memória do eleitor está mais afiada do que nunca. O caso deixa uma lição clara para quem faz política e jornalismo: a régua que você usa hoje para medir o seu adversário será a mesma que medirá o seu aliado amanhã. E o povo está assistindo a tudo, printando cada contradição.




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