segunda-feira, 30 de março de 2026

A RÉGUA DO ESTADÃO: O PESO QUE MUDA CONFORME O DONO DA CELA

O abismo editorial entre o 'presidiário comum' de 2019 e o 'preso especial' de 2025.

Por: Emerson Marinho
Bacharel em Comunicação e Colunista

Lula vs Bolsonaro na visão do Estadão.
A internet não perdoa e o arquivo não apaga. O jornal O Estado de S. Paulo mergulhou em uma crise de imagem sem precedentes após a divulgação de posicionamentos diametralmente opostos sobre como ex-presidentes devem cumprir pena. O contraste entre 2019 e 2025 virou o combustível perfeito para a polarização nas redes sociais, expondo o que muitos chamam de 'dois pesos e duas medidas'.

Em 2019, o alvo era Lula. Naquela época, o editorial foi implacável ao criticar o pedido do petista para ir ao velório do irmão. O texto pregava que Lula deveria ser tratado como um 'presidiário comum'. Para o jornal, qualquer flexibilização era vista como um 'mimo' ou 'privilégio inédito'. O discurso da igualdade perante a lei era a bandeira máxima para manter o líder do PT em uma cela na PF.

O jogo virou em 2025 com a condenação de Jair Bolsonaro. Agora, após a sentença de 27 anos por tentativa de golpe, o tom mudou radicalmente. O mesmo jornal que pedia rigor total agora defende que Bolsonaro 'não é um preso qualquer'. A tese é de que o cargo ocupado e a saúde debilitada justificariam a prisão domiciliar, evitando o que chamam de 'imprudência' institucional.

Nas redes sociais, o print é eterno. A comparação entre as manchetes 'Privilégios na prisão' e 'Bolsonaro merece tratamento especial' dominou os trending topics. O eleitor comum, que consome política pelo WhatsApp e pelo TikTok, percebeu a manobra narrativa. A crítica não é apenas jurídica, é sobre a coerência de um dos maiores veículos de comunicação do país. O discurso de que o sistema protege 'os seus' ganha força nas feiras e nos grupos de família. Quando a imprensa muda a régua conforme o réu, ela entrega munição pesada para quem deseja descredibilizar as instituições.

Essa mudança de postura revela uma crise de narrativa profunda. Em 2019, a 'isonomia' servia para punir; em 2025, a 'especificidade do cargo' serve para proteger. Para o cidadão que encara a fila do hospital ou o transporte lotado, essa diferença de tratamento soa como um deboche. A política, no fim das contas, é percebida como um jogo de cartas marcadas por quem detém a caneta.

O impacto para o Estadão é o desgaste da sua principal moeda: a credibilidade, se é que um dia já teve. Ao tentar suavizar a situação de Bolsonaro alegando 'magnanimidade', o jornal ignorou que o público de hoje faz a checagem em segundos. A disputa de versões está nas ruas e, desta vez, a explicação técnica não convence quem viu o rigor ser aplicado de forma seletiva no passado recente.

No tabuleiro do poder, a coerência é artigo de luxo, mas a memória do eleitor está mais afiada do que nunca. O caso deixa uma lição clara para quem faz política e jornalismo: a régua que você usa hoje para medir o seu adversário será a mesma que medirá o seu aliado amanhã. E o povo está assistindo a tudo, printando cada contradição.

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