Quando a retórica da 'família e bons costumes' serve apenas para camuflar o apetite insaciável pelo poder e pelo erário.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| Ética é o
que se faz com o dinheiro público quando ninguém está olhando. |
Observar o cenário político brasileiro contemporâneo é como assistir a uma peça de teatro barroca, onde o excesso de ornamentos morais busca esconder a vacuidade da alma pública. A ética, outrora um pilar de sustentação do contrato social, foi reduzida a um adereço de conveniência, sacado do bolso apenas quando serve para emparedar o adversário ou seduzir o eleitorado mais incauto. No centro desse palco, a hipocrisia tornou-se a língua franca de uma classe que prega a austeridade enquanto se lambuza no mel do orçamento secreto.
A
hipocrisia, no entanto, não é um fenômeno novo, mas ganhou contornos
industriais com a ascensão do bolsonarismo e a instrumentalização da fé.
Assistimos a um desfile de 'homens de bem' que, entre um versículo bíblico e um
grito de guerra contra a 'corrupção do sistema', articulam esquemas de desvio
em gabinetes acarpetados. A moralidade tornou-se seletiva: condena-se o
comportamento privado alheio com fúria inquisitorial, enquanto se tolera a
erosão institucional e o deboche contra as leis em nome de uma suposta 'missão
divina'.
No Maranhão,
o script não se distancia dessa dramaturgia nacional. Vemos personagens locais
que se apresentam como paladinos da retidão em São Luís, mas cujas alianças nos
bastidores exalam o odor ranhoso do clientelismo mais arcaico. A política de
balcão, onde se troca apoio por emendas e cargos, é operada por mãos que, aos
domingos, se levantam em louvor. Essa dissonância cognitiva entre o discurso do
púlpito e a prática do plenário é o que verdadeiramente corrói a confiança do
cidadão nas instituições.
O perigo
real reside na normalização desse estelionato eleitoral. Quando a mentira é
repetida exaustivamente sob o manto da santidade, a verdade passa a ser vista
como uma agressão. A fake news não é apenas um dado falso; é a ferramenta de
manutenção dessa fachada moral. É mais fácil atacar a honra de quem denuncia do
que explicar o aumento patrimonial inexplicável ou a indicação de parentes para
cargos estratégicos. A ética pública, nesse contexto, é sacrificada no altar do
pragmatismo mais rasteiro.
Reivindicar
a ética pública exige, antes de tudo, o desmascaramento desses 'profetas' do
orçamento. Não há moralidade que resista à falta de transparência e à
desigualdade acachapante que esses mesmos discursos fingem ignorar. Enquanto a
política for tratada como um campo de batalha religioso para esconder a gestão
ineficiente, continuaremos reféns de uma elite que usa a Bíblia para bater na
Constituição. A democracia pede passagem, sem máscaras e sem o cinismo de quem
confunde o público com o seu próprio quintal ideológico.




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