segunda-feira, 9 de março de 2026

A MORALIDADE POLÍTICA É UM FIGURINO QUE MUITOS VESTEM NO PALANQUE

Quando a retórica da 'família e bons costumes' serve apenas para camuflar o apetite insaciável pelo poder e pelo erário.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Ética é o que se faz com o dinheiro público
quando ninguém está olhando.

Observar o cenário político brasileiro contemporâneo é como assistir a uma peça de teatro barroca, onde o excesso de ornamentos morais busca esconder a vacuidade da alma pública. A ética, outrora um pilar de sustentação do contrato social, foi reduzida a um adereço de conveniência, sacado do bolso apenas quando serve para emparedar o adversário ou seduzir o eleitorado mais incauto. No centro desse palco, a hipocrisia tornou-se a língua franca de uma classe que prega a austeridade enquanto se lambuza no mel do orçamento secreto.

A hipocrisia, no entanto, não é um fenômeno novo, mas ganhou contornos industriais com a ascensão do bolsonarismo e a instrumentalização da fé. Assistimos a um desfile de 'homens de bem' que, entre um versículo bíblico e um grito de guerra contra a 'corrupção do sistema', articulam esquemas de desvio em gabinetes acarpetados. A moralidade tornou-se seletiva: condena-se o comportamento privado alheio com fúria inquisitorial, enquanto se tolera a erosão institucional e o deboche contra as leis em nome de uma suposta 'missão divina'.

No Maranhão, o script não se distancia dessa dramaturgia nacional. Vemos personagens locais que se apresentam como paladinos da retidão em São Luís, mas cujas alianças nos bastidores exalam o odor ranhoso do clientelismo mais arcaico. A política de balcão, onde se troca apoio por emendas e cargos, é operada por mãos que, aos domingos, se levantam em louvor. Essa dissonância cognitiva entre o discurso do púlpito e a prática do plenário é o que verdadeiramente corrói a confiança do cidadão nas instituições.

O perigo real reside na normalização desse estelionato eleitoral. Quando a mentira é repetida exaustivamente sob o manto da santidade, a verdade passa a ser vista como uma agressão. A fake news não é apenas um dado falso; é a ferramenta de manutenção dessa fachada moral. É mais fácil atacar a honra de quem denuncia do que explicar o aumento patrimonial inexplicável ou a indicação de parentes para cargos estratégicos. A ética pública, nesse contexto, é sacrificada no altar do pragmatismo mais rasteiro.

Reivindicar a ética pública exige, antes de tudo, o desmascaramento desses 'profetas' do orçamento. Não há moralidade que resista à falta de transparência e à desigualdade acachapante que esses mesmos discursos fingem ignorar. Enquanto a política for tratada como um campo de batalha religioso para esconder a gestão ineficiente, continuaremos reféns de uma elite que usa a Bíblia para bater na Constituição. A democracia pede passagem, sem máscaras e sem o cinismo de quem confunde o público com o seu próprio quintal ideológico.

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