quarta-feira, 18 de março de 2026

O TRONO DOS LEÕES: A DINASTIA DO SOBRINHO E O ESCANTEIO DO HERDEIRO

No Maranhão de Carlos Brandão, a 'paz armada' revela que o DNA vale mais que a palavra empenhada, enquanto o PT assiste ao isolamento de Felipe Camarão.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

No Trono dos Leões, o banquete é para a família.
Dizem que as paredes do Palácio dos Leões têm ouvidos, mas ultimamente elas parecem ter apenas memória — uma memória curta para acordos e longa para linhagens. O Maranhão, que por quase uma década ensaiou um figurino de renovação republicana sob a batuta de Flávio Dino, assiste agora ao retorno triunfal de uma coreografia política tão antiga quanto as pedras de cantaria do Centro Histórico: o personalismo familiar. O governador Carlos Brandão, outrora o vice silencioso e leal, revelou-se um mestre na arte da desidratação de aliados, operando uma manobra que faria os velhos oligarcas corarem de inveja ao entronizar o sobrinho, Orleans Brandão, como o sol em torno do qual o poder estadual deve orbitar em 2026.

A ascensão de Orleans Brandão não é apenas meteórica; é um exercício de 'coronelismo gourmet'. Revestido com o verniz de secretário municipalista e ostentando o título de presidente do MDB maranhense, o sobrinho favorito foi catapultado ao centro do palco em um evento nababesco que reuniu 182 prefeitos — uma demonstração de força que grita mais alto que qualquer discurso sobre meritocracia. No Maranhão de Brandão, a gestão pública virou uma extensão do almoço de domingo, onde o destino do estado é selado entre garfadas e afetos consanguíneos, deixando para os aliados de outrora apenas as migalhas do banquete.

Enquanto o sobrinho brilha sob os holofotes, Felipe Camarão vive o inverno do seu descontentamento. O 'herdeiro renegado', que carregava a promessa de assumir o governo para buscar a reeleição com a bênção de Dino e do PT, viu o tapete ser puxado com uma elegância cruel. Brandão, em um estalo de pragmatismo cínico, já declarou à imprensa nacional que 'nunca houve acordo'. O isolamento de Camarão, agora exposto por vazamentos de mensagens ácidas e números minguados nas pesquisas, é o retrato de quem confiou na palavra empenhada em um tabuleiro onde a regra é a sobrevivência do clã. O vice-governador, outrora o rosto da educação e da esperança 'dinista', hoje vaga pelos corredores do poder como um fantasma de um pacto que o tempo — e a conveniência — fez questão de apagar.

O dilema do PT nacional acrescenta uma nota de melancolia a esse roteiro. Dividido entre a lealdade histórica ao grupo de Flávio Dino e o pragmatismo de manter a máquina de Brandão alinhada ao projeto de reeleição de Lula, o partido parece inclinado a sacrificar seu quadro mais brilhante no estado no altar da governabilidade. O Palácio do Planalto olha para os 182 prefeitos de Brandão e enxerga votos e estabilidade para o Senado; olha para Camarão e enxerga apenas um idealismo que não fecha a conta do poder. É a vitória do realismo político sobre a coerência ideológica, um filme que o petismo já assistiu e protagonizou diversas vezes.

A Assembleia Legislativa, sob a batuta de Iracema Vale, funciona como a caixa de ressonância dessa 'paz armada'. Entre sorrisos protocolares e votações unânimes, o que se vê é a institucionalização da moeda de troca. As prefeituras maranhenses tornaram-se o grande balcão de negócios para 2026, onde o apoio à dinastia Brandão é o pedágio obrigatório para a sobrevivência orçamentária. Conclui-se, portanto, que no Maranhão as coalizões são sólidas como castelos de areia na maré cheia: duram exatamente até que o primeiro interesse familiar precise de um cargo, provando que, por aqui, o trono dos leões continua sendo uma propriedade privada disfarçada de bem público.

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