No Maranhão de Carlos Brandão, a 'paz armada' revela que o DNA vale mais que a palavra empenhada, enquanto o PT assiste ao isolamento de Felipe Camarão.
Jornalista e Colunista
| No Trono dos Leões, o banquete é para a família. |
A ascensão
de Orleans Brandão não é apenas meteórica; é um exercício de 'coronelismo
gourmet'. Revestido com o verniz de secretário municipalista e ostentando o
título de presidente do MDB maranhense, o sobrinho favorito foi catapultado ao
centro do palco em um evento nababesco que reuniu 182 prefeitos — uma
demonstração de força que grita mais alto que qualquer discurso sobre
meritocracia. No Maranhão de Brandão, a gestão pública virou uma extensão do
almoço de domingo, onde o destino do estado é selado entre garfadas e afetos
consanguíneos, deixando para os aliados de outrora apenas as migalhas do
banquete.
Enquanto o
sobrinho brilha sob os holofotes, Felipe Camarão vive o inverno do seu
descontentamento. O 'herdeiro renegado', que carregava a promessa de assumir o
governo para buscar a reeleição com a bênção de Dino e do PT, viu o tapete ser
puxado com uma elegância cruel. Brandão, em um estalo de pragmatismo cínico, já
declarou à imprensa nacional que 'nunca houve acordo'. O isolamento de Camarão,
agora exposto por vazamentos de mensagens ácidas e números minguados nas
pesquisas, é o retrato de quem confiou na palavra empenhada em um tabuleiro
onde a regra é a sobrevivência do clã. O vice-governador, outrora o rosto da
educação e da esperança 'dinista', hoje vaga pelos corredores do poder como um
fantasma de um pacto que o tempo — e a conveniência — fez questão de apagar.
O dilema do
PT nacional acrescenta uma nota de melancolia a esse roteiro. Dividido entre a
lealdade histórica ao grupo de Flávio Dino e o pragmatismo de manter a máquina
de Brandão alinhada ao projeto de reeleição de Lula, o partido parece inclinado
a sacrificar seu quadro mais brilhante no estado no altar da governabilidade. O
Palácio do Planalto olha para os 182 prefeitos de Brandão e enxerga votos e
estabilidade para o Senado; olha para Camarão e enxerga apenas um idealismo que
não fecha a conta do poder. É a vitória do realismo político sobre a coerência
ideológica, um filme que o petismo já assistiu e protagonizou diversas vezes.
A Assembleia
Legislativa, sob a batuta de Iracema Vale, funciona como a caixa de ressonância
dessa 'paz armada'. Entre sorrisos protocolares e votações unânimes, o que se
vê é a institucionalização da moeda de troca. As prefeituras maranhenses
tornaram-se o grande balcão de negócios para 2026, onde o apoio à dinastia
Brandão é o pedágio obrigatório para a sobrevivência orçamentária. Conclui-se,
portanto, que no Maranhão as coalizões são sólidas como castelos de areia na
maré cheia: duram exatamente até que o primeiro interesse familiar precise de
um cargo, provando que, por aqui, o trono dos leões continua sendo uma
propriedade privada disfarçada de bem público.




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