O ataque à deputada Erika Hilton não é
'opinião', é violência política de gênero e transfobia escancarada que exige
punição exemplar.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| Transfobia é crime e o custo da dignidade é alto. |
Vamos falar o português claro, sem as voltas que quem tem rabo preso gosta de dar: o que o apresentador Ratinho fez em rede nacional não foi 'crítica política'. Foi um ataque baixo, preconceituoso e carregado de uma ignorância que mata. Ao tentar dizer quem é 'mulher de verdade' para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, ele não apenas desrespeitou a deputada federal Erika Hilton — uma das parlamentares mais votadas do país —, mas cuspiu na cara de toda a população trans e travesti brasileira. É muita petulância um homem cisgênero querer dar aula sobre o que é ser mulher enquanto ignora a legitimidade de um voto democrático.
A desculpa
esfarrapada de que 'defende a população trans' mas mantém a 'opinião' é a velha
tática de quem quer bater e esconder a mão. Onde estava essa preocupação do
apresentador com o 'sentir na pele' quando homens ocuparam essa mesma comissão
em anos anteriores e outros que ocupam atualmente? Onde está o vídeo dele
reclamando dos homens cis que legislam sobre o corpo feminino? O silêncio dele
nesses casos prova que o problema nunca foi a competência ou a vivência, mas
sim a identidade de Erika. É a transfobia pura e simples, fantasiada de falso
zelo biológico para enganar o povo.
Erika Hilton
está cobertíssima de razão ao cobrar R$ 10 milhões em indenização e a suspensão
do programa. Liberdade de expressão não é salvo-conduto para cometer crime. No
Brasil, o Supremo Tribunal Federal já equiparou a transfobia ao crime de
racismo, e é inadmissível que uma concessão pública de televisão seja usada
como palanque para humilhar cidadãs brasileiras. O SBT, ao tratar o caso como
'solucionado' internamente, torna-se cúmplice. Não existe solução sem
reparação, sem pedido de desculpas real e sem a devida punição judicial para
quem se acha acima da lei por ter um microfone na mão.
Essa
conversa fiada de que 'o mundo está chato' é o refúgio dos privilegiados que
não querem perder o direito de oprimir. A política de ódio praticada por esses
comunicadores da velha guarda alimenta a violência nas ruas. Quando o Ratinho
deslegitima uma deputada trans, ele está autorizando o agressor lá da ponta a
fazer o mesmo. O impacto disso na vida de quem já sofre com a exclusão é
devastador. Erika não luta apenas por ela, luta pelo direito de existência de
um grupo que é alvo constante de apagamento e morte em nosso país.
A solução
para esse cenário não é apenas judicial, embora a prisão e a multa sejam
urgentes para mostrar que a lei vale para todos. Precisamos de uma fiscalização
rigorosa das concessões públicas de rádio e TV. O Ministério Público e o
Ministério das Comunicações não podem ser inertes diante de violações
sistemáticas de direitos humanos disfarçadas de entretenimento. É hora de
cobrar: ou as emissoras educam seus quadros e respeitam a diversidade do povo
brasileiro, ou devem perder o direito de entrar em nossas casas. A democracia
não aceita o ódio como mercadoria de audiência.




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