Enquanto o novo Plano Nacional de Educação desenha um horizonte de qualidade e equidade, a desarticulação entre entes federados ameaça transformar direitos em promessas vazias.
Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| Escola em tempo integral sem estrutura é depósito de gente. |
A meta de
universalizar o ensino em tempo integral para 50% dos estudantes é um avanço
civilizatório, mas corre o risco de virar um 'depósito de alunos' se não houver
um aporte financeiro que sustente a infraestrutura exigida pelo Custo Aluno
Qualidade (CAQ). Não se faz educação integral em prédios caindo aos pedaços ou
sem laboratórios de conectividade. O que vemos, historicamente, é um jogo de
empurra onde o governo federal lança as diretrizes e os municípios, já
asfixiados financeiramente, ficam com o ônus de uma conta que não fecha. Sem um
planejamento integrado que ignore palanques eleitorais, a escola de tempo
integral será um privilégio de cidades ricas, aprofundando a desigualdade que o
plano diz combater.
A questão da
valorização docente é outro ponto de estrangulamento que exige coragem
política, e não apenas retórica. Estabelecer um teto de 30% para contratos
temporários é um grito contra a 'uberização' do magistério que avança em
diversos estados sob o manto da austeridade fiscal. Um professor sem
estabilidade, sem plano de carreira e sem o cumprimento do piso nacional é um
profissional impedido de exercer sua plenitude pedagógica. Se os governadores e
prefeitos continuarem tratando o salário do professor como gasto a ser cortado,
e não como investimento estratégico, as metas de alfabetização na idade certa
continuarão sendo peças de ficção estatística.
Falar em 10% do PIB para a educação até o final da década soa como música para os ouvidos de quem defende a justiça social, mas no contexto de um regime fiscal que prioriza o pagamento de juros da dívida em detrimento do social, essa meta parece um horizonte que recua a cada passo. A destinação de recursos específicos para populações quilombolas, indígenas e do campo é um acerto ético inadiável, visando reparar séculos de negligência estrutural. No entanto, o direcionamento desses recursos pelo Fundeb precisa de fiscalização rigorosa para que o dinheiro chegue, de fato, à ponta, e não se perca nos labirintos da burocracia ou da corrupção local.
Em última análise, o sucesso do PNE 2026-2036 não será medido pelo brilho do texto aprovado no Congresso, mas pela disposição dos nossos governantes em baixar as armas da disputa partidária em favor de um projeto de nação. A educação de nossas crianças e jovens não pode ser refém de ciclos eleitorais de quatro anos. Ou os governos Federal, Estaduais e Municipais passam a falar a mesma língua — a língua do investimento real e da cooperação — ou estaremos condenando mais uma geração à mediocridade planejada por quem nunca precisou da escola pública para subir na vida. É hora de cobrar responsabilidade, pois o papel aceita tudo, mas o futuro do Brasil não espera mais.




0 comentários:
Postar um comentário