sexta-feira, 27 de março de 2026

NOVO PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E OS DESAFIOS PARA A “NOVA ESCOLA”

Enquanto o novo Plano Nacional de Educação desenha um horizonte de qualidade e equidade, a desarticulação entre entes federados ameaça transformar direitos em promessas vazias.

Por: Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política

Escola em tempo integral sem estrutura é depósito de gente.
O novo Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2026-2036 surge como um documento robusto, ambicioso e, acima de tudo, necessário. Ao deslocar o eixo central da mera expansão de matrículas para a garantia de uma educação de qualidade, o texto reconhece que não basta colocar a criança dentro da sala de aula; é preciso que essa escola seja um espaço de transformação real. Contudo, não podemos ignorar o elefante na sala: a execução desse plano depende de um pacto federativo que, hoje, encontra-se estilhaçado pela polarização e pela falta de coordenação entre União, estados e municípios.

A meta de universalizar o ensino em tempo integral para 50% dos estudantes é um avanço civilizatório, mas corre o risco de virar um 'depósito de alunos' se não houver um aporte financeiro que sustente a infraestrutura exigida pelo Custo Aluno Qualidade (CAQ). Não se faz educação integral em prédios caindo aos pedaços ou sem laboratórios de conectividade. O que vemos, historicamente, é um jogo de empurra onde o governo federal lança as diretrizes e os municípios, já asfixiados financeiramente, ficam com o ônus de uma conta que não fecha. Sem um planejamento integrado que ignore palanques eleitorais, a escola de tempo integral será um privilégio de cidades ricas, aprofundando a desigualdade que o plano diz combater.

A questão da valorização docente é outro ponto de estrangulamento que exige coragem política, e não apenas retórica. Estabelecer um teto de 30% para contratos temporários é um grito contra a 'uberização' do magistério que avança em diversos estados sob o manto da austeridade fiscal. Um professor sem estabilidade, sem plano de carreira e sem o cumprimento do piso nacional é um profissional impedido de exercer sua plenitude pedagógica. Se os governadores e prefeitos continuarem tratando o salário do professor como gasto a ser cortado, e não como investimento estratégico, as metas de alfabetização na idade certa continuarão sendo peças de ficção estatística.

Falar em 10% do PIB para a educação até o final da década soa como música para os ouvidos de quem defende a justiça social, mas no contexto de um regime fiscal que prioriza o pagamento de juros da dívida em detrimento do social, essa meta parece um horizonte que recua a cada passo. A destinação de recursos específicos para populações quilombolas, indígenas e do campo é um acerto ético inadiável, visando reparar séculos de negligência estrutural. No entanto, o direcionamento desses recursos pelo Fundeb precisa de fiscalização rigorosa para que o dinheiro chegue, de fato, à ponta, e não se perca nos labirintos da burocracia ou da corrupção local.

Em última análise, o sucesso do PNE 2026-2036 não será medido pelo brilho do texto aprovado no Congresso, mas pela disposição dos nossos governantes em baixar as armas da disputa partidária em favor de um projeto de nação. A educação de nossas crianças e jovens não pode ser refém de ciclos eleitorais de quatro anos. Ou os governos Federal, Estaduais e Municipais passam a falar a mesma língua — a língua do investimento real e da cooperação — ou estaremos condenando mais uma geração à mediocridade planejada por quem nunca precisou da escola pública para subir na vida. É hora de cobrar responsabilidade, pois o papel aceita tudo, mas o futuro do Brasil não espera mais.

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