quinta-feira, 5 de março de 2026

A ÉTICA DO ABSURDO: O LEGADO DE VIDRO DO BOLSONARISMO

Entre o discurso da moralidade e a prática do privilégio, a política brasileira tateia em busca de uma decência perdida.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Instrumentalizar a fé para esconder malfeitos não é política

Não há nada mais fascinante — e aterrorizante — na política contemporânea brasileira do que a elasticidade da ética sob o manto do bolsonarismo. O movimento que ascendeu ao poder com a promessa de uma 'nova política' e a bandeira da moralidade cristã, revelou-se, com o passar dos anos, um laboratório de cinismo institucional. O que assistimos não foi apenas uma gestão de governo, mas a sistematização de uma moral seletiva, onde o erro alheio é crime capital e o desvio próprio é apenas uma 'necessidade estratégica'.

A instrumentalização da fé, esse pilar tão caro ao nosso povo, tornou-se o escudo perfeito para a ausência de decência pública. Ao amalgamar o sagrado com o profano das negociações de gabinete, o bolsonarismo criou uma barreira de proteção onde qualquer crítica à conduta ética é prontamente classificada como um ataque à religião. Essa alquimia política permitiu que escândalos de toda sorte fossem varridos para baixo do tapete do templo, enquanto a turba se distraía com guerras culturais fabricadas em laboratórios de desinformação.

Aqui em São Luís, observamos essa mesma coreografia sendo repetida por satélites locais que tentam mimetizar o estilo 'bronco' e supostamente autêntico da matriz brasiliense. As alianças se costuram no escuro, baseadas não em projetos de cidade ou estado, mas na sobrevivência de um grupo que utiliza a pauta de costumes para esconder a absoluta falta de propostas para a desigualdade gritante que nos cerca. A ética, para esses atores, é um acessório que se retira antes de entrar nas salas de reuniões onde o orçamento público é fatiado.

O fenômeno das fake news não é apenas um problema de comunicação, mas o sintoma mais agudo da falência ética. Quando a verdade deixa de ser o lastro do debate público e passa a ser uma construção de conveniência, a própria democracia entra em coma. O bolsonarismo profissionalizou a mentira, transformando-a em política de Estado. Não se trata mais de discordar de fatos, mas de criar realidades paralelas onde a corrupção é virtude se for praticada por 'um dos nossos'.

Ao fim e ao cabo, o legado desse período é uma terra arrasada nos valores que deveriam nortear a vida pública. O patriotismo de fachada, que se enrola na bandeira para esconder as joias da coroa ou as rachadinhas de subúrbio, é a maior prova da hipocrisia que nos governa. É preciso resgatar a ética não como um sermão de domingo, mas como o compromisso inegociável com a transparência e o bem comum, longe do falso messianismo que tanto nos custou.

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