terça-feira, 17 de março de 2026

A COREOGRAFIA DO PERDÃO E A CORDA NO PESCOÇO DO CAPITÃO

Enquanto o Congresso tenta costurar uma saída honrosa para o vandalismo de janeiro, o cerco jurídico contra Jair Bolsonaro se fecha em um nó que nem a fé cega parece capaz de desatar.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

A história não apaga digitais com canetadas parlamentares.
Há uma ironia fina e quase perversa no espetáculo que assistimos em Brasília. De um lado, as galerias do Congresso Nacional transformam-se em confessionários de conveniência, onde parlamentares da extrema-direita tentam vender a anistia aos envolvidos no 8 de janeiro como um gesto de 'pacificação'. No entanto, para quem conhece os bastidores do poder, o que se vê não é misericórdia, mas uma tentativa desesperada de apagar as digitais de uma intentona golpista antes que a Justiça termine de conferir os CPFs das lideranças intelectuais.

O projeto de anistia, embalado em discursos de 'vovôs e vovós injustiçados', é o cavalo de Troia perfeito. Sob a casca de humanitarismo seletivo, esconde-se a urgência de blindar o ex-presidente Jair Bolsonaro. O cerco jurídico em torno dele não é apenas uma sucessão de processos; é o desenho de uma arquitetura do crime que envolve desde o desvio de joias cravejadas de hipocrisia até a trama rústica de uma minuta golpista que dormia em gavetas nada republicanas. O 'capitão', outrora impetuoso, agora se vê num xadrez onde cada movimento da Polícia Federal o aproxima de um xeque-mate inevitável.

A narrativa de 'perseguição política', tão martelada nos púlpitos e nas redes sociais, começa a perder o fôlego diante da materialidade dos fatos. Não se trata de cercear o pensamento conservador, como tentam pintar os arautos do caos, mas de punir a instrumentalização da fé e do patriotismo para fins de ruptura democrática. No Maranhão, terra de coronelismos que se reciclam, observamos com atenção como as lideranças locais tentam equilibrar o apoio ao bolsonarismo com a sobrevivência institucional, cientes de que o vento em Brasília mudou de direção e sopra gelado para os lados da inelegibilidade.

O que assusta a cúpula do PL e os aliados de Bolsonaro não é o rigor de Alexandre de Moraes, mas a possibilidade de que o silêncio dos 'patriotas' presos se quebre diante da perspectiva de anos atrás das grades enquanto seus líderes desfrutam da liberdade em condomínios de luxo. A anistia é, portanto, um cala-boca institucionalizado. É a tentativa de dizer ao 'soldado' que ele não será abandonado, enquanto o 'general' estuda como salvar a própria pele nas instâncias superiores.


Ao fim e ao cabo, a história brasileira é pródiga em perdões que geram novas feridas. Mas desta vez, a sociedade parece menos disposta a aceitar a amnésia programada. O cerco jurídico a Bolsonaro é o teste definitivo para as instituições brasileiras: ou o país entende que a democracia não aceita desaforo, ou continuaremos a alimentar o monstro que amanhã voltará a pedir anistia por novos pecados. A política não é para amadores, mas a justiça, quando tardia, não pode se tornar cúmplice.

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