O embate entre Mourão e a juíza Vanessa Cavalleri escancara a perversidade de um sistema que criminaliza a cor da pele enquanto ignora a barbárie das classes altas.
Por:
Marília Azevêdo
Jornalista e Comentarista Política
| A violência mais perversa muitas vezes vem da elite. |
O recente embate na CPI do Crime Organizado entre o senador Hamilton Mourão e a juíza Vanessa Cavalleri não foi apenas um desentendimento técnico; foi o retrato nu e cru de como a elite política brasileira enxerga a população vulnerável. Ao sugerir que o ensino para jovens pobres deve se limitar ao básico — ler, escrever e operações matemáticas —, o senador ignora décadas de luta por educação integral e reafirma uma visão colonialista: a de que o filho do operário deve apenas saber o suficiente para não errar o comando do patrão. É a manutenção do status quo disfarçada de pragmatismo pedagógico, uma tentativa deliberada de podar horizontes antes mesmo que eles se formem.
A fala de
Mourão, no entanto, colidiu com a realidade brutal apresentada por Cavalleri. A
juíza desmistificou a ideia conveniente de que a pobreza é o motor da
violência. Pelo contrário, ela revelou que os crimes mais perversos — estupros
virtuais, tortura e homicídios qualificados — florescem muitas vezes no berço
da classe média, longe da necessidade material. Enquanto isso, o sistema
carcerário brasileiro continua operando como uma máquina de moer carne preta e
pobre, focando sua energia em pequenos furtos e no varejo do tráfico, enquanto
as atrocidades cometidas por quem tem sobrenome e conta bancária seguem
invisibilizadas ou tratadas como 'desvio de conduta'.
Essa
seletividade penal é a espinha dorsal de um Estado que escolhe quem punir com
base na estética da miséria. Como bem pontuou a magistrada, há uma rapidez
assustadora em aumentar penas para furto de energia elétrica, atingindo
diretamente quem está na base da pirâmide, ao mesmo tempo em que se cria uma
blindagem quase intransponível para crimes de colarinho branco e corrupção
sistêmica. O Direito no Brasil, infelizmente, ainda funciona como uma
ferramenta de controle social da pobreza, garantindo que o cárcere tenha cor e
classe social bem definidas, independentemente da gravidade do delito cometido.
O cenário de
abandono estatal torna-se ainda mais revoltante quando olhamos para a
ineficiência das políticas de inserção. A existência de centenas de vagas
ociosas em programas como o Jovem Aprendiz, enquanto jovens são recrutados pelo
crime por falta de perspectiva, não é um erro de gestão — é um projeto. O
Estado falha em oferecer o 'cardápio de opções' mencionado por Cavalleri,
deixando um vácuo de afeto e pertencimento que é prontamente preenchido por
facções ou discursos extremistas. Não falta dinheiro; falta coragem política
para tratar o jovem da periferia como um sujeito de direitos, e não como uma
estatística de segurança pública.
Enquanto o
discurso oficial foca na repressão, a realidade exige conexão humana e
dignidade. A fala da juíza é um soco no estômago de quem prefere soluções
simples para problemas estruturais. Alfabetizar não basta se o sistema nega ao
cidadão o direito de usar essa leitura para questionar a injustiça que o cerca.
A verdadeira segurança pública começa quando o Estado para de perseguir o
'biotipo' da pobreza e passa a garantir que o filho da empregada tenha as
mesmas oportunidades e a mesma proteção legal que o filho do senador. Qualquer
coisa diferente disso é apenas a manutenção de uma senzala moderna.




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