Entre anotações de propina e relógios de luxo, Flávio Bolsonaro desenha o mapa da hipocrisia eleitoral brasileira.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| O roteiro de como comprar silêncios e vender o Brasil. |
A política brasileira, em sua versão mais rasteira, acaba de ganhar um roteiro manuscrito. As anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro não são apenas rabiscos de um articulador; são a prova documental de que o 'patriotismo' apregoado em palanques tem uma etiqueta de preço bem definida. No mercado eleitoral da família 01, candidaturas são tratadas como commodities: retira-se um capitão aqui, paga-se alguns milhões acolá, e o desenho democrático é moldado não pelo voto, mas pelo volume de recursos que flui nos bastidores de um poder viciado em facilidades.
O que
espanta não é a existência do fisiologismo, mas a naturalidade com que valores
astronômicos — como os R$ 15 milhões citados para demover o tal 'Pollon' de uma
disputa — são registrados entre uma anotação e outra. É o triunfo do cinismo
sobre a ética pública. Enquanto a militância é alimentada com discursos de ódio
e pautas de costumes, a realpolitik da família se resume ao 'follow the money'.
As anotações de Flávio revelam que, para os defensores da 'família e da moral',
o Estado é uma grande franquia, onde o lucro individual sobrepõe-se a qualquer
projeto de país ou bem-estar social.
A conexão
entre essas anotações e as famosas joias 'presenteadas' por regimes
autoritários fecha um círculo perverso. Quando se olha para a privatização de
refinarias a preços módicos e o surgimento de Rolexes e colares milionários nos
inventários da família, a pergunta sobre a origem do dinheiro para alimentar
esse mercado eleitoral torna-se quase retórica. É a privatização do patrimônio
público financiando a manutenção do poder privado. Onde há fumaça de joia,
geralmente há o fogo de uma negociata que sangra os cofres nacionais e enche os
bolsos de aliados estratégicos.
Flávio, o mestre das explicações inverossímeis, agora tenta vender a narrativa de que tudo não passa de 'boato' ou fofoca de corredor. É a mesma estratégia utilizada no caso das rachadinhas, da loja de chocolates milagrosa e da mansão financiada em cartórios de procedência duvidosa. Para o bolsonarismo, a verdade é um conceito maleável, moldado conforme o engajamento da bolha nas redes sociais. Eles apostam no cansaço da opinião pública e no ódio ao adversário para pavimentar um caminho onde provas materiais perdem o valor diante de um 'post' bem feito no Instagram.
A estratégia para a reeleição é clara e abusivamente simples: agitar o espantalho do antipetismo, vestir a 'Griffe Bolsonaro' e contar com a memória curta de uma elite que tolera a corrupção desde que ela venha acompanhada de um discurso liberal de fachada. Flávio Bolsonaro não pretende explicar o conteúdo do seu “bilhetinho”; ele pretende que o barulho das redes sociais silencie o clamor por justiça. Cabe a nós, no entanto, não permitir que o mercado de compra de apoio se torne a regra definitiva de um Brasil que ainda tenta, a duras penas, ser uma democracia séria.




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