Quando o marketing institucional tenta maquiar a ausência crônica de políticas públicas e a hipocrisia dos discursos de ocasião.
Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| A conta do marketing não fecha com a realidade. |
Nas redes
sociais, o cinismo ganha filtros de alta definição. Parlamentares que
historicamente votam contra projetos de lei que garantem direitos civis e
proteção à maternidade agora postam fotos ao lado de suas esposas, exibindo um
sorriso tão plástico quanto a empatia que fingem ter. O bolsonarismo, em
especial, aperfeiçoou essa técnica de transformar a data em um palanque de
'moral e bons costumes', reduzindo a complexidade da luta feminista a um ideal
de submissão disfarçado de virtude religiosa. A mulher, para eles, só é digna
de homenagem se couber no molde da 'ajudadora'.
Aqui em São
Luís, o cenário não foge à regra do oportunismo. A máquina pública estadual e
municipal se esmera em produzir eventos de 'empoderamento' que duram apenas o
tempo de um flash. No entanto, se cruzarmos a ponte em direção às periferias da
Ilha, veremos que a realidade é desprovida de pétalas de rosas. Faltam creches,
o transporte público é uma tortura cotidiana para as trabalhadoras e a rede de
acolhimento à mulher vítima de violência sobrevive por milagre e dedicação de
poucas, enquanto o marketing gasta fortunas em campanhas de autopromoção.
A
instrumentalização da fé é outro ingrediente amargo nessa receita. Líderes
políticos que usam o púlpito como palanque tentam sequestrar o significado do
Dia Internacional da Mulher para reforçar estigmas e barreiras. Querem celebrar
a mulher, desde que ela não questione a estrutura patriarcal ou exija autonomia
sobre o próprio corpo. É a ética da conveniência: aplaudem a força feminina
para o trabalho, mas a silenciam no debate sobre poder e decisão. O feminismo,
tratado como palavrão por essa ala, é o que de fato incomoda, pois exige mais
do que um post de Instagram; exige redistribuição de poder.
Enquanto o 8
de março for encarado apenas como uma data do calendário comercial ou uma peça
de publicidade política, continuaremos a contar corpos em vez de vitórias. A
emancipação real não se conquista com discursos adocicados, mas com orçamento
público robusto, educação de gênero nas escolas e o fim da impunidade para
agressores protegidos por redes de influência. Menos flores, prefiro o respeito
traduzido em leis que funcionam e uma política que não precise de maquiagem
para esconder suas feridas abertas.




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