domingo, 8 de março de 2026

08 DE MARÇO: FLORES NO POST, MAS A REALIDADE NÃO CABE NA HOMENAGEM

Quando o marketing institucional tenta maquiar a ausência crônica de políticas públicas e a hipocrisia dos discursos de ocasião.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

A conta do marketing não fecha com a realidade.
Chega a ser fascinante, para não dizer patético, observar como o dia 8 de março se transformou em uma espécie de Black Friday da consciência social. Governos e empresas, que durante todo o ano negligenciam a paridade salarial e ignoram a sobrecarga do trabalho doméstico, subitamente descobrem a importância da 'mulher guerreira'. É o espetáculo da hipocrisia institucional, onde flores e bombons servem como cortina de fumaça para ocultar orçamentos minguantes em casas de apoio e políticas de proteção contra o feminicídio que mal saem do papel.

Nas redes sociais, o cinismo ganha filtros de alta definição. Parlamentares que historicamente votam contra projetos de lei que garantem direitos civis e proteção à maternidade agora postam fotos ao lado de suas esposas, exibindo um sorriso tão plástico quanto a empatia que fingem ter. O bolsonarismo, em especial, aperfeiçoou essa técnica de transformar a data em um palanque de 'moral e bons costumes', reduzindo a complexidade da luta feminista a um ideal de submissão disfarçado de virtude religiosa. A mulher, para eles, só é digna de homenagem se couber no molde da 'ajudadora'.

Aqui em São Luís, o cenário não foge à regra do oportunismo. A máquina pública estadual e municipal se esmera em produzir eventos de 'empoderamento' que duram apenas o tempo de um flash. No entanto, se cruzarmos a ponte em direção às periferias da Ilha, veremos que a realidade é desprovida de pétalas de rosas. Faltam creches, o transporte público é uma tortura cotidiana para as trabalhadoras e a rede de acolhimento à mulher vítima de violência sobrevive por milagre e dedicação de poucas, enquanto o marketing gasta fortunas em campanhas de autopromoção.

A instrumentalização da fé é outro ingrediente amargo nessa receita. Líderes políticos que usam o púlpito como palanque tentam sequestrar o significado do Dia Internacional da Mulher para reforçar estigmas e barreiras. Querem celebrar a mulher, desde que ela não questione a estrutura patriarcal ou exija autonomia sobre o próprio corpo. É a ética da conveniência: aplaudem a força feminina para o trabalho, mas a silenciam no debate sobre poder e decisão. O feminismo, tratado como palavrão por essa ala, é o que de fato incomoda, pois exige mais do que um post de Instagram; exige redistribuição de poder.

Enquanto o 8 de março for encarado apenas como uma data do calendário comercial ou uma peça de publicidade política, continuaremos a contar corpos em vez de vitórias. A emancipação real não se conquista com discursos adocicados, mas com orçamento público robusto, educação de gênero nas escolas e o fim da impunidade para agressores protegidos por redes de influência. Menos flores, prefiro o respeito traduzido em leis que funcionam e uma política que não precise de maquiagem para esconder suas feridas abertas. 

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