A recente aproximação entre o ex-juiz, a família Bolsonaro e o PL de Valdemar da Costa Neto revela as tensões entre a imagem técnica e a sobrevivência política no Congresso.
Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista
| Moro agora se alia a quem antes acusava de corrupção e pressão política. |
O cenário político brasileiro é marcado por ciclos de pragmatismo que frequentemente desafiam a lógica das convicções passadas. O caso mais recente e emblemático envolve o senador Sérgio Moro (União-PR). Quatro anos após sua saída ruidosa do Ministério da Justiça, fundamentada em denúncias de interferência política na Polícia Federal para proteger o clã Bolsonaro, Moro hoje protagoniza cenas de cordialidade com Flávio Bolsonaro e lideranças do Partido Liberal. O que se observa não é apenas uma mudança de discurso, mas um realinhamento institucional forçado pelas engrenagens de sobrevivência no Legislativo e pela necessidade de manter uma base eleitoral sólida no Paraná.
Para
compreender a magnitude dessa contradição, é preciso revisitar abril de 2020.
Naquela ocasião, Moro renunciou ao cargo de ministro alegando que o então
presidente Jair Bolsonaro buscava substituir o comando da PF para obter acesso
a relatórios de inteligência e proteger aliados e familiares de investigações.
Aquela ruptura foi o marco zero de uma inimizade que alimentou processos
judiciais e ataques mútuos. Bolsonaro chegou a acusar Moro de chantageá-lo em
troca de uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Hoje, esse histórico de
hostilidades parece ter sido arquivado em nome de uma coalizão de conveniência
que visa consolidar o campo da direita contra o atual governo federal.
A aliança
com Valdemar da Costa Neto adiciona uma camada extra de complexidade ética à
trajetória de Moro. O ex-juiz, que outrora personificou a luta contra o
'fisiologismo' e a corrupção do 'Centrão', agora divide palanque e estratégias
com o presidente do PL — figura que Moro já classificou publicamente como um
dos expoentes da corrupção no país devido ao seu envolvimento no Mensalão. A
institucionalização de Moro como político de carreira exigiu que ele absorvesse
as práticas que antes condenava de sua cátedra em Curitiba, evidenciando que,
no Congresso, a pureza ideológica raramente sobrevive à aritmética do poder.
Do ponto de
vista institucional, essa movimentação fragiliza a narrativa da Lava Jato como
um movimento estritamente técnico e apartidário. Ao 'beijar a mão' de Flávio
Bolsonaro, Moro sinaliza que as graves acusações de interferência feitas no
passado tornaram-se secundárias diante do isolamento político que enfrentou
após ser alvo de processos de cassação. Embora tenha sido absolvido pelo TSE, a
vulnerabilidade de seu mandato o empurrou para os braços do bolsonarismo, o
único ecossistema capaz de lhe garantir oxigênio político no Sul do país, ainda
que ao custo de sua reputação de intransigência moral.
O resultado
desse movimento é uma recepção ambivalente. Se por um lado a direita busca
unificar forças, por outro, tanto bolsonaristas raízes quanto críticos da
oposição apontam a hipocrisia do arranjo. Para o analista institucional, o
episódio serve como um lembrete de que o Estado e seus poderes operam sob a
lógica da realpolitik: as instituições são moldadas por atores que,
pressionados pelas circunstâncias, frequentemente sacrificam o discurso de
ontem em favor da viabilidade de amanhã. A conta dessa metamorfose, contudo,
será cobrada pelo eleitor que ainda busca coerência entre o símbolo e a
prática.




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