O divórcio entre Carlos Brandão e o 'dinismo' revela que, no xadrez maranhense, a lealdade é apenas uma peça descartável na busca pela sobrevivência dinástica.
Por:
Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| O divórcio Brandão-Dino é o novo clássico da política nacional. |
Diz o velho
ditado de corredor que, em política, a gratidão é uma doença da qual o paciente
se cura assim que assume a caneta. Carlos Brandão, o outrora vice silencioso e
disciplinado, parece ter atingido a cura plena. O rompimento com o grupo de
Flávio Dino não é apenas uma rusga administrativa; é um parricídio político
executado com a frieza de quem conhece cada engrenagem do Palácio dos Leões. O
que vemos hoje no Maranhão é a transição dolorosa de um projeto que se
pretendia republicano e transformador para um pragmatismo de estilo 'Centrão',
onde o sobrenome Brandão começa a pesar mais que qualquer ideologia.
Tribunal de Contas do Estado (TCE) e a eleição da Assembleia Legislativa
foram os primeiros atos desse divórcio público. Brandão não quer apenas
governar; ele quer apagar o brilho do antecessor para que sua própria sombra, e
a de sua família, possa crescer sem obstáculos.
Flávio Dino,
agora devidamente trajado com a toga do Supremo Tribunal Federal, assiste de
Brasília ao desmonte meticuloso de sua influência. A ironia é deliciosa e
ácida: o mestre da estratégia, que acreditou ter deixado um sucessor sob controle,
descobriu que o poder não admite vácuo nem gratidão eterna. A disputa pela vaga
no
O fator
Felipe Camarão é, talvez, o elemento mais trágico dessa narrativa. O
vice-governador, herdeiro direto do 'dinismo' e esperança do PT para 2026, tornou-se
um refúgio de resistência que Brandão tenta isolar. Ao ensaiar a candidatura de
seu sobrinho, Orleans Brandão, o atual governador joga no lixo os acordos de
cavalheiros firmados sob as bênçãos de Lula. A política maranhense, que Dino
tentou desvincular do coronelismo clássico, parece retornar às suas raízes mais
profundas: a do grupo que, uma vez no poder, tudo faz para não o dividir, nem
mesmo com quem lhe abriu as portas.
A munição usada nesse conflito baixou o nível para além do suportável. Trocas de acusações sobre gravações clandestinas, 'grampos' e o uso da máquina pública para retaliações pessoais mostram que a elegância discursiva ficou no passado. Quando Brandão ameaçou retirar servidores cedidos ao gabinete de Dino no STF, ele não estava apenas economizando recursos; estava enviando uma cabeça de cavalo para a capital federal. É a política do constrangimento, onde a moralidade vira um detalhe irrelevante diante da manutenção do feudo.
Por fim, resta saber como o Palácio do Planalto equilibrará esse racha. Lula precisa do Maranhão unido para 2026, mas Brandão parece disposto a quebrar a louça se isso garantir sua hegemonia local. O 'dinismo', que um dia foi uma lufada de renovação progressista no Nordeste, corre o risco de virar apenas uma nota de rodapé na história de um sucessor que aprendeu rápido demais as lições de Maquiavel, mas esqueceu-se das de ética. No Maranhão de Brandão, o futuro tem um sobrenome familiar e o passado, por mais brilhante que tenha sido, já não é convidado para o jantar.




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