domingo, 8 de março de 2026

ESPECIAL 8 DE MARÇO: O LEGADO DE BERTHA LUTZ NA CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA BRASILEIRA

Uma análise sobre o movimento sufragista e a institucionalização dos direitos políticos das mulheres sob a liderança de uma cientista do Estado.

Por: Henrique Alvarenga
Jornalista, analista político e colunista

Bertha Lutz reformou o Estado para incluir as mulheres.
O direito ao voto feminino no Brasil, comumente narrado como uma evolução natural da sociedade, foi, na verdade, o resultado de uma estratégia institucional rigorosa e de longo prazo liderada por Bertha Lutz. Cientista de formação e com trânsito nas esferas diplomáticas, Lutz compreendeu cedo que a participação política não seria concedida por benevolência, mas conquistada através da ocupação estratégica de espaços de poder e da pressão técnica sobre o arcabouço jurídico nacional.

Fundada em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) funcionou como o braço institucional dessa luta. Longe de ser apenas um movimento de protesto de rua, a organização operou como um centro de inteligência política. Sob a batuta de Lutz, a federação articulou-se com o Congresso Nacional e com influenciadores internacionais, demonstrando que a exclusão das mulheres do processo eleitoral era uma disfunção técnica da jovem democracia brasileira, que limitava a soberania popular e a legitimidade das instituições.

A janela de oportunidade política abriu-se com a Revolução de 1930. O governo provisório de Getúlio Vargas buscava legitimação e modernização do Estado. Foi nesse cenário de reestruturação que a pressão exercida por Bertha Lutz e suas aliadas culminou na promulgação do Código Eleitoral de 1932. Pela primeira vez na história do Brasil, a legislação reconheceu explicitamente o direito de as mulheres votarem e serem votadas, removendo a barreira de gênero que as confinava à vida privada.

No entanto, a garantia legal do voto em 1932 foi apenas o primeiro passo para a consolidação institucional. A batalha seguinte deu-se na Assembleia Constituinte de 1933-1934. Bertha Lutz atuou incansavelmente para que os direitos políticos conquistados por decreto fossem inscritos na nova Carta Magna. O sucesso dessa empreitada não apenas assegurou a cidadania feminina contra retrocessos imediatos, mas também preparou o terreno para que a própria Lutz assumisse uma cadeira na Câmara dos Deputados em 1936, materializando a transição do papel de ativista para o de legisladora.

O legado de Bertha Lutz deve ser analisado sob a ótica da construção democrática. Ao reformar o sistema eleitoral, ela não apenas inseriu um novo grupo de eleitores, mas alterou a natureza do contrato social brasileiro. A luta sufragista demonstrou que as instituições são dinâmicas e que sua solidez depende da capacidade de absorver e representar a totalidade da população. Olhar para 1932 é entender que a democracia brasileira é uma obra em constante construção técnica e jurídica.

A história de Bertha Lutz nos lembra que a democracia não se consolida apenas por discursos, mas por decisões políticas, inteligência institucional e coragem para enfrentar estruturas que insistem em excluir. Ao abrir as portas do sistema eleitoral às mulheres, ela não apenas ampliou o número de eleitores — redefiniu os próprios limites da cidadania brasileira. A presença feminina na política, hoje ainda marcada por desafios e sub-representação, é fruto direto daquela estratégia paciente que transformou reivindicação social em norma jurídica e participação concreta no poder.

Neste 8 de março, revisitar o legado de Bertha Lutz é reconhecer que cada direito conquistado pelas mulheres brasileiras foi resultado de organização, persistência e visão de futuro. A democracia que temos hoje carrega a marca dessas mulheres que souberam disputar o Estado por dentro e reescrever as regras do jogo político. Honrar essa trajetória é compreender que a igualdade não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo — e que a presença das mulheres nas instituições segue sendo condição essencial para que o Brasil se torne, de fato, uma democracia plena.

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