Como a bancada evangélica transformou o conflito no Oriente Médio no novo palanque das guerras culturais e do marketing político brasileiro.
Por:
Altair Inácio
Jornalista e Colunista
| Para a bancada evangélica, a diplomacia não se faz no Itamaraty, mas no culto. |
O que
assistimos é a consolidação de uma 'diplomacia do amém'. Ao agitar bandeiras de
Israel em manifestações na Avenida Paulista ou em redutos conservadores no
Maranhão, o bolsonarismo religioso não está preocupado com a complexidade
geopolítica do Levante ou com a segurança real do povo judeu. O objetivo é a
manutenção de uma estética de guerra santa, onde qualquer crítica ao governo de
Benjamin Netanyahu — um líder cujas táticas de sobrevivência política espelham
as da nossa extrema-direita — é vendida como uma heresia imperdoável. A fé, que
deveria ser um espaço de transcendência, foi rebaixada a um carimbo de
passaporte ideológico.
É fascinante
notar a ironia histórica: grupos que bradam 'Brasil acima de tudo' parecem ter
uma dificuldade crônica em priorizar os interesses nacionais quando estes
colidem com a narrativa de Israel como o 'relógio de Deus'. A
instrumentalização da Estrela de Davi serve para mascarar a ausência de
propostas reais para os problemas domésticos. Enquanto o preço do petróleo
oscila e o saneamento básico patina, a prioridade legislativa parece ser o
alinhamento incondicional a um governo estrangeiro, numa espécie de 'sionismo
de exportação' que ignora os apelos da própria ONU e de setores progressistas
da comunidade judaica brasileira.
Nos bastidores do Congresso, o cálculo é cínico e preciso. A crise é o combustível necessário para manter a base mobilizada contra um suposto 'inimigo da fé'. A narrativa é simples, mastigada e eficaz para o WhatsApp: o governo atual seria 'inimigo de Deus' por criticar as ações militares em Gaza. Essa manobra desvia o foco de pautas econômicas e sociais, empurrando o país para um beco sem saída identitário onde o debate técnico sobre direitos humanos é asfixiado pelo dogmatismo de conveniência.
No Maranhão, terra onde a política se faz com um olho no Diário Oficial e outro na paróquia ou no templo, esse fenômeno ganha contornos ainda mais nítidos. Parlamentares locais replicam o discurso brasiliense para pavimentar caminhos em prefeituras do interior, usando a 'defesa de Israel' como um código para 'defesa dos valores tradicionais'. No fim do dia, a política externa brasileira virou refém de um projeto de poder que confunde o púlpito com a tribuna e o interesse público com o lucro eleitoral da fé instrumentalizada.




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