terça-feira, 24 de março de 2026

A TERRA SANTA É AQUI: A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA DIPLOMACIA PELO PÚLPITO

Como a bancada evangélica transformou o conflito no Oriente Médio no novo palanque das guerras culturais e do marketing político brasileiro.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

Para a bancada evangélica, a diplomacia
não se faz no Itamaraty, mas no culto.
Não há nada mais revelador sobre a atual indigência do debate público brasileiro do que observar a facilidade com que o Itamaraty foi substituído pelo culto dominical. A recente crise diplomática entre Brasil e Israel, catalisada pelas declarações do presidente Lula sobre a tragédia humanitária em Gaza, não foi lida pela oposição como uma questão de política externa, mas sim como um 'asset' valioso para o marketing da fé. Para a bancada evangélica, Tel Aviv não é uma capital estrangeira em conflito; é um subúrbio espiritual de Brasília onde se joga o destino das próximas eleições.

O que assistimos é a consolidação de uma 'diplomacia do amém'. Ao agitar bandeiras de Israel em manifestações na Avenida Paulista ou em redutos conservadores no Maranhão, o bolsonarismo religioso não está preocupado com a complexidade geopolítica do Levante ou com a segurança real do povo judeu. O objetivo é a manutenção de uma estética de guerra santa, onde qualquer crítica ao governo de Benjamin Netanyahu — um líder cujas táticas de sobrevivência política espelham as da nossa extrema-direita — é vendida como uma heresia imperdoável. A fé, que deveria ser um espaço de transcendência, foi rebaixada a um carimbo de passaporte ideológico.

É fascinante notar a ironia histórica: grupos que bradam 'Brasil acima de tudo' parecem ter uma dificuldade crônica em priorizar os interesses nacionais quando estes colidem com a narrativa de Israel como o 'relógio de Deus'. A instrumentalização da Estrela de Davi serve para mascarar a ausência de propostas reais para os problemas domésticos. Enquanto o preço do petróleo oscila e o saneamento básico patina, a prioridade legislativa parece ser o alinhamento incondicional a um governo estrangeiro, numa espécie de 'sionismo de exportação' que ignora os apelos da própria ONU e de setores progressistas da comunidade judaica brasileira.

Nos bastidores do Congresso, o cálculo é cínico e preciso. A crise é o combustível necessário para manter a base mobilizada contra um suposto 'inimigo da fé'. A narrativa é simples, mastigada e eficaz para o WhatsApp: o governo atual seria 'inimigo de Deus' por criticar as ações militares em Gaza. Essa manobra desvia o foco de pautas econômicas e sociais, empurrando o país para um beco sem saída identitário onde o debate técnico sobre direitos humanos é asfixiado pelo dogmatismo de conveniência.

No Maranhão, terra onde a política se faz com um olho no Diário Oficial e outro na paróquia ou no templo, esse fenômeno ganha contornos ainda mais nítidos. Parlamentares locais replicam o discurso brasiliense para pavimentar caminhos em prefeituras do interior, usando a 'defesa de Israel' como um código para 'defesa dos valores tradicionais'. No fim do dia, a política externa brasileira virou refém de um projeto de poder que confunde o púlpito com a tribuna e o interesse público com o lucro eleitoral da fé instrumentalizada.

0 comentários:

Postar um comentário

Buscar no Site