quinta-feira, 12 de março de 2026

A MIRAGEM DAS PESQUISAS E O TEATRO DO ABSURDO

Como o 'Fenômeno Flávio' desafia a lógica econômica e a memória ética do brasileiro.

Por: Altair Inácio
Jornalista e Colunista

O Brasil tem memória curta ou o cinismo
virou estratégia eleitoral?

Vivemos em um Brasil onde a realidade dos fatos insiste em brigar com a ficção dos números produzidos sob encomenda ou, no mínimo, sob uma ótica enviesada. É fascinante — para não dizer assustador — observar como uma pesquisa Datafolha consegue projetar um crescimento meteórico de Flávio Bolsonaro, reduzindo uma distância de 15 para 3 pontos em relação ao presidente Lula, justamente em um momento onde os indicadores econômicos básicos, como desemprego em queda e PIB em alta, deveriam ditar o humor nacional. Parece haver um abismo intransponível entre o bolso do cidadão e a planilha do pesquisador. É fundamental salientar que outros institutos de pesquisa seguem a mesma tendência, mas a explicação para esse fato segue uma lógica que mais se parece com uma teoria da conspiração.

O que se vê é a tentativa de normalização do absurdo. Estamos falando de um senador cujo currículo é adornado não por grandes projetos ou experiência no Executivo, mas por uma coleção de escândalos que faria qualquer manual de ética pública entrar em combustão espontânea. Da mansão de 6 milhões de reais — paga com uma agilidade que deixaria qualquer investidor de Wall Street com inveja — à nebulosa história dos 51 imóveis comprados com dinheiro vivo, a figura de Flávio é a antítese do que se espera de um gestor. E, no entanto, a imprensa o trata como um 'player' estratégico, ignorando as sombras das milícias e das 'rachadinhas' que pairam sobre sua trajetória.

A movimentação coordenada para inflar tais candidaturas parece ser a resposta visceral da elite econômica às recentes vitórias progressistas. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais e, principalmente, a ousadia de taxar quem recebe acima de 100 mil, tocou no nervo exposto da nossa burguesia rentista. Quando o governo propõe discutir a jornada 5x2, o empresariado, que ainda sonha com a produtividade da era colonial, aciona seus mecanismos de defesa na mídia para vender a ideia de um governo em declínio, independentemente da bonança nos dados oficiais.

Essa discrepância entre a aprovação e a realidade econômica é uma construção narrativa. Ao comparar o atual governo com os desastrosos anos de Temer e Bolsonaro, a má-fé se torna evidente. Onde estava o rigor dessas análises quando a inflação galopava e o país voltava ao mapa da fome? Hoje, a estratégia é criar um clima de 'terceiro turno' permanente, onde a desestabilização é a regra e o progresso social é tratado como um erro de percurso que precisa ser corrigido por herdeiros do bolsonarismo.

A população precisa estar atenta ao 'logro da normalidade'. Não se trata apenas de uma disputa de números, mas de uma disputa de memória. Aceitar que Flávio Bolsonaro é um adversário à altura de um estadista como Lula, ignorando todo o passivo judicial e a ausência de propostas reais para os mais pobres, é admitir que a política brasileira foi sequestrada pelo marketing do cinismo. As pesquisas podem tentar desenhar o amanhã, mas é o compromisso com a verdade histórica que deve guiar o eleitor, para que o erro não seja repetido sob uma nova embalagem.

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